segunda-feira, 27 de fevereiro de 2023

Djavanear o que há de bom

"Pode ser uma coisa piegas, mas isso é essencial: você já imaginou se todo mundo tivesse amor no coração, como o mundo seria? Sei que é um papo meio idiota, não dá pra falar com qualquer um, sempre tem aquele que vai levar para o lado de chacota. Mas o amor é fundamental porque o amor traz consciência, o amor traz piedade, traz perdão: o amor traz o construir. O amor faz a pessoa se interessar pelo outro. Não há coisa mais importante na vida.”

 Djavan, em entrevista ao Mano Brown.

 

Eu fui uma vez só ao show do Djavan. Eu tinha 16 anos e estava completamente fascinado que ia vê-lo ao vivo no Planeta Atlântida de 2000. Ao longo dos outros shows da noite eu fiz de tudo pra ir avançando na multidão e ficar o mais perto possível do palco para poder vê-lo de perto. O maior problema é que depois dele entrariam os Raimundos, e todos os fãs de Raimundos estavam fazendo o mesmo - avançando para ficar mais perto do palco. Eu, que não entendia nada de Raimundos, mas adorava o álbum Ao Vivo do Djavan, cantava a plenos pulmões, emocionadíssimo, sozinho no meio dos homens grandões e tatuados, enquanto eles me olhavam muito - muito - torto. Quando começou o show dos Raimundos foi a vingança: abriram uma roda punk gigantesca. Mas eu só me dei conta de que eu era o centro da roda punk quando um jato de água podre das poças acumuladas durante 7 horas de festival voou pela minha cara e roupas. Das nuvens à concretude do chão e da poça d'água voando em todas as partes do meu corpo, essa foi minha primeira experiência tentando apenas sentir a música tentando fazer com que a vergonha pelo julgamento dos outros não me privassem de sentir o valor daquele momento.

 

Djavan no show do Planeta Atlântida do ano 2000.
Uma das programações mais aleatórias da história do festival, mas que me permitiu vê-lo ao vivo.

Hoje eu conto essa história de vez em quando, como aquelas anedotas que a gente conta quando alguém relembra fatos engraçados que viveu. Mas muito além da anedota em si, são muitas coisas que vêm à minha cabeça quando penso nisso. Por exemplo: quem foi que teve a maravilhosa ideia de programar o show do Djavan logo antes do show dos Raimundos? Critério zero. Depois eu costumo lembrar que o Djavan não parecia estar muito feliz em cena – talvez porque a galera do público raimundense estivesse vaiando o tempo todo (sim, não foi apenas para mim que a galera torcia o nariz: eu dividi a honra de ser vaiado junto com Djavan. Ele no palco, eu na plateia) ou talvez porque ele soubesse que tocar nesse festival feito por uma rádio de pop rock gaúcho que misturava na programação Ivete Sangalo com Men At Work, passando por Pato Fu, Wilson Sideral (o irmão do Rogério do Jota Quest) e Comunidade Nin Jitsu não daria certo. E realmente não deu. Mas o que é “dar certo”, afinal de contas? Hoje, 23 anos depois, eu lembro daquela noite como o momento em que eu vi de perto um ídolo, um artista no melhor sentido da palavra, um músico brasileiro que tem uma das mais belas vozes que pudemos ouvir ao vivo. Mais do que isso: hoje eu escuto um podcast onde o próprio artista reflete sobre sua música, clama por edificar o conhecimento do público e formar novos músicos que possam trabalhar com profundidade artística. Hoje eu escuto uma entrevista onde ele – vítima de boatos de internet sobre ser bolsonarista, coisa que nunca foi – chama atenção para a violência que existe na rede, onde o uso desproporcional da força das palavras soterra qualquer capacidade de entendimento e interpretação de entrelinhas, de poesia, e até mesmo de um discurso direto. Um lugar onde as pessoas só ouvem o que querem ouvir, só entendem o que querem entender e usam do poder das palavras para atacar e gerar ódio. Um lugar onde aquelas pessoas que me vaiaram, que o vaiaram, que nos olharam torto e que depois nos chutaram estão com o microfone na mão, tendo espaço para dizer o que bem quiserem.

 

Eu tinha 16 anos. Naquele 2000 estava no meio do ensino médio, ainda ia começar a estudar espanhol, começaria meu primeiro namoro um ano depois, tinha acabado de começar a fazer teatro e também estava aprendendo que deixar aflorar emoções em público era um risco. Gostar de Djavan poderia ser um risco num mundo masculino despotencializado.

 

Hoje tenho 39. Estou sempre aprendendo que o amor tem várias faces: é lindo e tenso, é forte e leve, tem um lugar de luz gigante, mas também de escuridão profunda. Estou aprendendo a chorar. Estou aprendendo a deixar a lágrima cair quando enxergo beleza nas coisas, nas pessoas, na arte, na música. Estou aprendendo a deixar aflorar os sentimentos que tantas vezes soterrei por estar cercado de marmanjos que ainda não descobriram a importância disso, e que ainda insistem em olhar feio aquele que tenta. Estou aprendendo que o amor, por ser amor, invade. E fim.

 


terça-feira, 16 de fevereiro de 2016

O Espaço Vazio


A folha em branco, o tema livre, a agenda em branco, o tudo pela frente. A sala vazia, o tudo é possível. Invejo os decoradores. Invejo aqueles com a capacidade de olhar para o vazio e visualizar o que ainda não está lá. Invejo o arquiteto que olha o terreno e tem a noção exata de como quer que fique o prédio, a casa, a ponte. A página em branco. O poeta que vislumbra o poema, o desenhista que adapta as proporções do traço ao tamanho da folha, o grafiteiro que se pendura no prédio disposto a fazer uma árvore nascer da pequena caixa d’água e se estender por toda a lateral do edifício, com todas as suas nuances de luz e sombra, de profundidade, tonalidade e formas. Aqueles que criam sobre o vazio. Aqueles que saem de férias sabendo como vão aproveitar o tempo. Aqueles que têm um dia livre e não o desperdiçam tentando fazer tudo o que não podem em um tempo que não têm. A vida é uma página em branco, dizem, difícil é não enchê-la de rabiscos desconexos e sem sentido. Dar forma ao que ainda não é. Pensar sobre o invisível, ver algo que ninguém viu ainda. Saber retirar do bloco de mármore apenas o que não é a estátua, apenas o que está atrapalhando a visão daqueles que ainda não perceberam que ali existe uma estátua emparedada. Desemparedar a estátua. Redecorar o ambiente. Distribuir o tempo na agenda, o traço no papel, os elementos no palco. Criar sobre o vazio. Respeitá-lo, respirá-lo. Entender o que o vazio pede que se faça com ele. Escutar, assimilar, visualizar, projetar, criar, assumir as escolhas para se permitir deixar algo aflorar. Câmera na mão, ideia na cabeça, ação.

Se o mundo por vezes é uma página em branco, eu passarinho. Eu, gota de tinta multicolor, pincel e artista, que me imprimo constantemente no vazio, tentando ser fiel às minhas proporções, cores, profundidades e estéticas. Criando sobre o nada.

Minhocão e o pé de feijão.

segunda-feira, 26 de janeiro de 2015

Ma(g)ico de rua


Há um ano decidi levar a sério meus estudos e trabalhos com mágica, coisa que eu já estava há muito mais tempo interessado, mas que nunca tinha decolado. A brincadeira começou a se mostrar muito mais séria do que parecia e me levou a descobrir caminhos, pessoas e possibilidades ímpares!

Uma das coisas que eu fiz para “perder o medo” do público foi pegar meus aros e sair pra rua. Fui caminhar em São Paulo para levantar algumas possibilidades. Não tinha nem um show fechado, nem coragem para parar alguém na rua e perguntar se queria ver um efeito. Era um mal começo. Então uma idéia me veio à l’esprit: eu poderia experimentar algumas apresentações em semáforos, por que não?

Nesses devaneios, ao cruzar uma esquina movimentada, vi um malabarista trabalhando. Decidi descer e conversar com o cara, uma das melhores decisões que eu já tomei sobre o assunto. Era um argentino que ficaria um mês por ali e que precisava juntar grana diariamente para pagar o hostel no qual estava hospedado e fazer um pé de meia antes de voltar pra casa. Muito simpático, o cara começou a me dar dicas de pontos, maneiras de apresentação, passagem de chapéu. Mostrei meus aros, o cara surtou. Disse que eu tinha que aproveitar esse número que era ótimo e que ele nunca tinha visto em semáforos. Dali em diante, sempre que tinha um tempinho voltava à esquina da Avenida Brasil com a Nove de Julho, dava um oi pro argentino e ficava no sentido oposto da avenida durante uma hora, duas horas, meia hora, mostrando um pouco dessa minha nova descoberta em arte ali, na rua, fazendo uma graninha de chapéu e estudando a reação das pessoas. Tem desde os que adoram a apresentação, buzinam e aplaudem, até os que odeiam e te atropelariam se permitido fosse. Além, é claro, daqueles que fingem que não estão vendo, olham para outro lado, fixam o olhar no sinal vermelho, etecetera, etecetera...

Sentávamos embaixo de uma marquise, eu e o argentino, e conversávamos sobre o público, tecíamos teorias sobre como as pessoas reagiam, sobre o tamanho dos carros do público paulista (são enormes, e você só começa a se dar conta disso quando transita entre algumas capitais com o olhar voltado para isso), sobre como as pessoas estão cada vez mais fechadas no seu próprio mundo, buscando uma individualização exacerbada, com vidros negros que impedem de ver se existe alguém realmente dirigindo aquele carro. O cara tinha várias teorias de passagem de chapéu, de quantidade de entrada de grana. Dizia que na primeira semana do mês é ruim, só melhora a partir do dia 7. Eu dizia que achava que quando os caras não olhavam diretamente para o número é porque não tinham nenhuma moeda ali dando sopa e não queriam ser público se não tinham com o que pagar. Enquanto isso, as histórias pipocavam tanto que eu tive vontade de abrir um blog apenas para refletir sobre o assunto: sobre a reação das pessoas, sobre os pequenos fatos que aconteciam conosco ali. Depois levei em consideração o fato de que eu deixo o Maico Sem Ene tão abandonado durante tantos períodos do ano que eu não teria coragem de alimentar outro blog que não fosse ele.

Teve uma Kombi cheia de trabalhadores uniformizados que ficou horas me aplaudindo e chacoalhando de um lado para outro. Teve alguém que jogou um punhado de moedas no canteiro central porque eu não tinha passado por ali e a pessoa queria muito retribuir o pocket show. Teve o dia em que eu ganhei uma clave amarela de uma moça que passou numa scooter. Aconteceram animações de festas de aniversário porque pegaram o meu contato por ali. Um dia, um motociclista voltou e me convidou para apresentar mágicas para as crianças da sua comunidade, onde ele conduzia um projeto de animação infantil. Teve um cara num carro da Band que queria me levar num programa de TV! (hihihi...). Fora as crianças que ficam por ali vendendo bala. Tão pequenas, aparentemente frágeis, e já tão endurecidas pelo sol e pelos tantos “nãos” do semáforo. Demorei para conseguir um pouco da confiança e atenção delas, mas conseguimos conversar algumas vezes, fiz alguns efeitos especialmente para eles (tem um menininho que é especialmente arredio, super desconfiado, que só começou a confiar em mim depois que eu fiz uma tampinha de garrafa desaparecer. Hoje, sempre que me vê, ele vem com uma folhinha catada no chão: “tio, faz sumir?”). Muita história boa de ser contada. Hoje, passado um ano do início disso tudo, eu “regretto“ de não ter escrito essas histórias todas no calor do momento.

Fazendo a festa junto com a criançada da comunidade.
Convite de um motociclista que estava passando e curtiu o pocket show.
Acho que nesse tempo, o que mais me chocou foi perceber a quantidade de pessoas que ao parar no sinal vermelho aproveitam para dar aquela conferidinha básica no telefone, facebook, wattsap e coisas do gênero. A pessoa pisa no freio com um olho no sinal e outro no aparelho, fica ali mergulhada – um minuto e meio de suspensão da realidade caótica do trânsito – para em seguida engatar e acelerar de novo. Essa nossa fixação por pequenos aparelhos luminosos está passando dos limites do que podemos aguentar... o problema é que ninguém para muito para pensar sobre isso. Pensar demanda tempo. Clicar é mais dinâmico do que refletir.

Sigo nos semáforos quando me sobra um tempinho e disposição. Fico mais naquela esquina de Sampa, mas já consegui trabalhar um pouco em Brasília e, na última semana, fiz um recorrido em uma grande avenida de Porto Alegre, buscando ponto interessante. Diferenças em relação à São Paulo? Bem... carros muito menores e aconchegantes, muito mais pessoas simpáticas e curtindo a apresentação, muito mais aplausos... que bom que ainda não extrapolamos o senso de estresse no trânsito como na capital paulista (apesar de termos, cada cidade, seus já conhecidos problemas de mobilidade e fluxo).

Nas próximas semanas, montarei uma agenda especial em Poa. Além de dar cursos de verão e rever alguns conteúdos de teatro, vou abrir espaço para frequentar algum semáforo (já estou de olho em alguns pontos). Quem sabe este ano eu não consigo expandir essa área de atuação, e realizo o sonho de montar um espetáculo de rua?

A ver.



domingo, 20 de outubro de 2013

Você não entendeu nada


Jacques, toujours Jacques.

Se você precisa de trens para partir em uma aventura e de navios brancos que possam te levar a buscar o sol que será posto à sua frente, procurar as canções que você possa cantar,

Se você precisa de palavras pronunciadas por velhos para justificar todas as tuas renúncias, se a poesia para você é apenas um jogo, se toda a tua vida é apenas um envelhecer,

Se você precisa de tédio para parecer profundo e do barulho das cidades para embriagar os teus remorsos e de fraquezas para parecer bom e ainda da raiva para parecer forte,

Então,

Você não entendeu nada.




Tu n'as rien compris

S'il te faut des trains pour fuir vers l'aventure et de blancs navires qui puissent t'emmener chercher le soleil à mettre dans tes yeux, chercher des chansons que tu puisses chanter,

Alors s'il te faut l'aurore pour croire au lendemain, et des lendemains pour pouvoir espérer retrouver l'espoir qui t'a glissé des mains. Retrouver la main que ta main a quittée,

Et alors s'il te faut des mots prononcés par des vieux pour justifier tous tes renoncements. Si la poésie pour toi n'est plus qu'un jeu, si toute ta vie n'est qu'un vieillissement,

Alors s'il te faut l'ennui pour te sembler profond et le bruit des villes pour saouler tes remords et puis des faiblesses pour te paraître bon et puis des colères pour te paraître fort,

Alors alors

Tu n'as rien compris

quarta-feira, 3 de abril de 2013

Hamlet e o golpe de Estado

É mais ou menos assim: Hamlet avança para atacar o rei Claudius, pronto para apunhalá-lo. Está pronto para atacá-lo, decidido. Mas o rei está... rezando. Na hora em que o vê em momento de limpeza espiritual, Hamlet percebe que não pode matá-lo, pois morrer orando significa purificar sua alma. Decide esperar um pouco mais, para que o rei, em um momento de pecado, morra sabendo que sua alma está suja.

Hoje, os vilões das historias reais também sabem disso. Sabem que não podem ser atacados enquanto estão rezando. E é por isso que resolvem ficar rezando o templo inteiro, mesmo sem acreditar verdadeiramente em deus, ou mesmo sem querer o bem do seu próximo. Essa é, na verdade, uma maneira de defender-se dos ataques da sociedade. Ao mínimo sinal de perigo, gritam: "hey, povo de deus, vejam! Estão atacando um homem santo!". Então eles são salvos pela multidão ensandecida, religiosamente seguidora de suas mentiras pecaminosas.

Porque seguir rezando é também uma maneira de controle social. As pessoas estão sedentas por um messias. Estão esperando há dois milênios pela vinda daquele que vai acabar com o pecado e o sofrimento nas suas vidas. Só que Godot não chega, nem vai chegar. A necessidade de ter um líder é tão grande, que qualquer um que tenha autoconfiança e ganância para dar um passo à frente e reivindicar a liderança, a terá. Como na velha piadinha sobre o grande amor, enquanto o líder certo não chega, estas pessoas "vão se divertindo com o errado".

"Sua vida é tão vazia que você não consegue pensar numa maneira melhor de passar estes momentos? Ou você fica tão impressionados com a 'autoridade', que dá respeito e crédito a tudo e a todos os que dizem ostentá-lá?" Fight Club.

A religião protege os malfeitores desde os tempos de Shakespeare. Na verdade, desde muito antes. Shakespeare apenas se deu conta disso e colocou no papel. Em nome da igreja os malfeitores foram longe demais. E, em seu próprio nome, deus mandou matar muita gente, desde o antigo testamento até hoje.

Hoje, amigos religiosos, o diabo esta tomando proporções muito maiores. Não se esqueçam de que ele ficou tentando Jesus no deserto com mil riquezas e delicias que só sendo muito santo alguém teria negado. O diabo se veste bem, fala bem a uma multidão apaixonada, faz chapinha no cabelo e sempre aparece bem alinhado em publico. Mas por dentro ele é podre, oco, fedorento. O diabo tem o poder de encantar as pessoas ao ponto de fazê-las cometer os piores atos possíveis. Não se esqueçam que Jesus disse: muitos virão em meu nome e enganarão a muitos (Mateus, 24-5). Amém.

Hoje a gente percebe o quanto todos esses séculos de dominação religiosa fez mal pra cabeça do povo. Sempre volto ao mito de Platão e sempre penso em indicar esse livro maravilhoso do Saramago chamado A Caverna. Leiam, quem ainda não.

O problema é que Claudius, o oponente de Hamlet, se encontra em um lugar feito especialmente para momentos de reclusão espiritual, fervorosamente concentrado em suas orações. Pergunto-me se Hamlet teria hesitado caso o rei estivesse rezando na sala de casa, depois de tomar um mate. Não sei. Mas o símbolo do lugar, do "espaço sagrado" é algo a ser levado (muito) em consideração. Então, na ânsia de ser protegido, o vilão tenta transformar em igreja todos os lugares por onde ele anda, inclusive lá onde não se deveria falar de religião porque não vem ao caso. É por isso que agora já estão fazendo shows evangélicos no púlpito do plenário. E daqui a uns dias ou alguns anos, vai ser costume começar a sessão rezando um pai nosso. Como já acontece em muitas escolas no DF (apenas mais uma forma de torcer o pepino desde pequenino).

Mas algo mais grave vem por aí. Em Hamlet (olha o spoiler, hein?) o cara demorou tanto para tentar tirar o rei de lá que quando o fez foi tarde demais. Tomou um veneno mortal e acabou morrendo junto. A galera se acaba em uma orgia de espadas e veneno e a peça termina por falta de personagens. Ou seja, todo mundo se fode. Talvez mais uma marotice do cara lá de cima, que gosta de matar pessoas?

A cruzada contra o mal já começou. O mal esta no poder, ganhando muito dinheiro em cima das pessoas amarradas no fundo da caverna. Hamlet tem que conseguir resultados práticos o quanto antes, que é para a luta não esfriar, e para não correr o risco de morrer junto no final.

E o resto será silêncio... até alguém gemer um aleluia no horizonte.
.

sábado, 30 de março de 2013

See you, Claremont!

Quando alguém me perguntar o que eu levo desses últimos dois meses...? bem... tenho uma vontade maior de teatro. Relembrei que adoro pesquisar movimento, ação e detalhes de atuação. Tenho três quilos a menos e uma coluna vertical a mais. Meu inglês já está melhor que o "Hello, I'm Maico from Brazil". Reencontrei velhos amigos, fiz mais amigos brasileiros e gringos, fui ao deserto e tirei foto idiota. Conheci pessoas do meu país que fazem fronteira com a Guiana Francesa, vejam só...! Vi uma igreja que se transformou em teatro. Almocei em mesas de conversação linguística, falando uma língua a cada dia. Fiz aulas de ballet e dança contemporânea (me senti a menininha daquele vídeo engraçado do ballet em absolutamente quase todas as aulas). Pedalei, fui pro ensaio de roller, comi champignon e amêndoas como se não houvesse amanhã. Vi muitos esquilos nas ruas, grandes como os ratos brasileiros (os do congresso). Senti saudade, vontade de voltar e de ficar ao mesmo tempo. Recebi críticas e elogios ao meu trabalho. Molhei o pé no Pacífico frio pra caralho. Joguei freesbe e Uno. Li, pensei e discuti. Fiz um ensaio do meu solo para Thomas e o ouvi dizer que lhe faz lembrar as peças que fazia "quando era jovem". Dormi tarde e acordei cedo pra conseguir conversar pelo skype com quem eu quero bem. Entre altos e baixos, aprendi a me mover diferente e dei nó na cabeça com algumas das técnicas. Já saio daqui com saudade, e fico com a expectativa de encontrar o meu Sótano na próxima escala, no sul do México. Fico com a expectativa de voltar a Poa em alguns dias para dar oficina e apresentar minha peça. Fico com a expectativa de chegar em São Paulo e abraçar minha Iararinha. Fico com a mala cheia de livros e a cabeça cheia de idéias.


sexta-feira, 18 de janeiro de 2013

M in M


(hoje, três anos depois de ter escrito esse texto, enquanto preparo novas viagens, novos portos, novos desafios, novos vistos, me deparo com o novo projeto de um dos meus grupos do coração, o Teatro Sarcáustico. Demorei a publicar esse texto, escrito em uma manhã fria de dezembro em que eu transitava entre um teste em Madrid e um final de ano em Paris, sonhando com minha Porto Alegre enquanto comia una media com tomate rallado em um barzinho de esquina, pensando justamente nos meus companheiros que tinha deixado temporariamente).

Primeiro contato, tateio o escuro, respiro o ar gelado, percorro ruas que em uma primeira mirada me soam raras, grandes abstratas, impessoais... é difícil imaginar, quando se chega em uma cidade pela primeira vez, o modo como iremos nos apropriar dela, como ela irá fazer parte de nós, de nossa vida... e vai...? Caminhar por entre ruas pequenas, conhecer becos escondidos, imergir nos seus segredos, ser tragado, absorvido, sem dar-se conta do momento de transição, onde o viajante solitário com sua mochila se transforma no feliz habitante, no cidadão modelo, no profissional bem sucedido, no espelho onde todos querem mirar-se. Mas tudo são conjunturas, são suposições perdidas e até descabidas, uma vez que a vontade de fazer com que tudo isso seja seu não pertence exatamente a esse lugar... talvez a dificuldade seja a de descobrir a que lugar ela pertence... estando a pouco mais de oito horas do novo porto, daquela outra cidade a qual julgamos conhecer tão bem (o que sabemos não ser verdade), aquela outra, a qual nos dirigimos com a alegria de quem volta para casa, mesmo sabendo que viver assim significa, mesmo por um curto espaço de tempo, viver sem casa, pulando de galho em galho, mudando constantemente, cambiando por dentro por fora, convivendo com o engorda-emagrece associado tantas vezes com o estar-feliz/ estar-triste que estas cidades te trazem, ou que a tua cidade, aquela que te espera (que te espera?!) te envia... e sabendo que a outra, aquela do destino, não te conhece tanto assim, mas tu aceita quand même. Avançar. Voltar. Afinal, quando é mesmo que um passo à frente significa um retorno, e quando é que o retorno é que significa um passo à frente? Hã?

Madrid, dezembro de 2009

Dedicado a todos meus companheiros, mes compagnons, mis compañeros de jornada, os quais posso ver agora, enquanto fecho meus olhos.

.

terça-feira, 8 de janeiro de 2013

Poeminha Braimstorm

Peguei uma idéia,
Deturpei o sentido.
Escutei ao contrário,
Entendi ao avesso.
Olhei nos teus olhos
Verdes,
Vi no meu passado,
Um presente.
Respirei contigo,
Alterou meu pulso.
Me perguntei sobre o futuro.
Li teus escritos,
Sorri teus sorrisos,
Cresci teu cabelo,
Furei teu umbigo.
Respondi tua mensagem,
Chorei escondido.
Chorei abertamente.
Fingi. E fui honesto às vezes.
Corri, querendo ficar.
(e fiquei querendo sair, mas seria muito clichê fazer esse jogo de palavras)

avras.

Fui previsível, incrível, sofrível, surpreendente, chato.
Bobo, inclusive.
Te dei minha roupa – nosso cheiro.
Primeiro guardei teus recados,
(aquele, em pedaços, fui perdendo palavra por palavra.)
Mas lembro de todos.
Apesar de isso ser impossível, minto.
É mais bonitinho.

http://pinterest.com/leilaeme/photography/

Tenho tantos defeitos quanto você, virtudes.
Mas meu sorriso permanece
Dois tracinhos e um parêntese
Escritos em papel timbrado
Selado e postado às pressas... acontece...

Como são efêmeras as cartas, os beijos e as frases!
Mas as imagens ficam, ardentes.
Então o efêmero dura.
Os beijos pendentes
E as palavras ditas, não ditas, idealizadas e esperadas
Não vão embora.
A cabeça gira, latente.

Perdoe-me,
Se eu fosse corajoso, não seria eu.
E se não fosse, também não seria.
Não quero impressionar, prefiro que me conheças assim,
Com defeitos e cicatrizes, inteiro.
Para mim, não é problema.
Não sei quem és, mas no fundo, quem se sabe?

Se você existisse, eu te escreveria um poema.

.

quarta-feira, 21 de novembro de 2012

Gincana abaixo de mau tempo



Chuva torrencial, exponencial, abundante, daquelas que não escoam por lado nenhum e acabará por fim a submergir um canto todo de uma cidade. Na avenida encharcada, difícil é descer da calçada, tamanho o rio que corre entre pista e meio-fio. Qualquer um que ousasse pôr o pé para fora do abrigo que era aquela parada de ônibus, em meio segundo se transformaria em uma esponja. Ao lado da parada, uma tendinha dessas que vendem coisinhas e comidinhas, transformada em ilha, claro, como a parada ao seu lado, abriga o que nela não coube. Então são dois grupos, numa grande gincana molhada: do lado de lá o grupo da parada observa o ônibus chegando enquanto no seu campo de visão o grupo da tendinha recua em ola para evitar a poça que voa em sua direção. Do outro lado o grupo da tendinha alterna seu olhar entre a esquerda, na esperança de um ônibus que os tire daquela ilha, e a direita, invejando alguém do outro grupo que porventura tenha sentido a sorte de ser resgatado por uma linha. Mas linhas milagrosas são escassas, e raras. E não menos raro é o motorista (?) de ônibus que cruza em alta velocidade na pista central, deixando para trás a esperança do resgate imediato. Ninguém protesta, calejados pela cotidianidade com que isso ocorre – além do mais qualquer movimento brusco significa mais água no corpo, e todos ali sabem que um péssimo motorista não valeria aquele sacrifício. A chuva resolve intensificar os trabalhos. Os dois grupos já têm dificuldade em se enxergar, tamanha a cortina molhada que os separa. Olhando para o chão, sua área seca está cada vez menor, os sapatos (e as meias!) sentem os respingos do dilúvio que cai a poucos centímetros. Apertam-se. Mas a chuva não aproxima os seres humanos. Eles apenas se apertam para escapar da umidade externa, com o olhar no horizonte, quietos, resignados. Eventualmente alguém se liberta, atravessa correndo a avenida, levando a parte que lhe cabe de água para casa. O movimento cessa. Não mais ônibus, não mais carros. O tempo passa. Apenas sons molhados e pensamentos esparsos enchem a cabeça de quem espera. Dois, três, cinco minutos de água e asfalto. Água, asfalto e corredeiras no meio fio. Do outro lado surge ela, menina, pequena, vestida de escola. Nota-se que costuma passar sempre por ali, vinda de alguma aula. Sob os olhares atentos dos dois grupos da gincana, surge com dificuldade, lutando contra a natureza que a quer empurrar de volta. Salta uma corredeira, pisa o asfalto, protege o rosto e o corpo com os braços, inutilmente. Cruza pelo canteiro central. Tem a boca roxa de frio, o casaco empapado, a mochila pesada, o pé vestido em água. Chega à segunda corredeira, a que dará acesso ao grupo da tendinha. Pisa no limite entre asfalto e rio, saltando ao meio-fio. Junta-se ao grupo. Busca um lugar para si. O grupo lhe abre espaço, não por solidariedade, mas por não querer receber a água que aquela inesperada visitante trouxe. A menina treme dos pés à cabeça, arrepiada, frio. A moça da tendinha lhe sorri, nota-se que a freqüência é habitual, elas se conhecem de vista. Não existem palavras nem aproximações mais profundas, mas estamos diante de um daqueles momentos onde a cordialidade superficial se manifesta, como acontece sempre no elevador, na padaria, no balcão: tudo bem? Tudo. Tudo bem? Tudo. Um bom dia. Pra você também. Até mais. Nos vemos. É nessa fração de segundo, entre a chegada da menina encharcada e o sorriso da moça que vende comidinhas e coisinhas, que acontece a aproximação verbal da segunda em direção à primeira: “Oi, tudo bem?”. A outra, composta em camadas de corpo, água, roupa e água, boca roxa e pele arrepiada, sorri batendo queixo: “tudo”.



quinta-feira, 15 de novembro de 2012

A História do Elefante


Uma vez, há muito, muito tempo atrás, no continente africano, viviam os elefantes. E eles eram livres. Podiam andar por todos os lados e em toda parte. Não havia fronteiras, não havia barreiras, não havia cercas de arame farpado. Os elefantes podiam andar de norte a sul e de leste a oeste.

E eles eram muito felizes. Quando estavam sós, caminhavam para encontrar amigos. Quando estavam com fome, caminhavam para encontrar folhas para comer. E quando estavam com medo, caminhavam até encontrar o conforto de suas mães.

Um dia, um dos elefantes mais jovem viu uma árvore cheia de folhas mais suculentas que as demais. Com fome, ele virou as costas para os outros para comer da deliciosa árvore. Em um instante, ele foi separado de sua família.


Every year, every day,... I'm walking. Foto de Eric Nathan.


Quando o pequeno elefante tinha acabado de comer, ele virou-se para juntar-se à sua família. Mas encontrou uma barreira enorme entre eles. Longa, alta e forte... Sua família de um lado e o jovem elefante de outro.

Ele encostou-se na barreira, empurrou-a fortemente, tentou cavar por debaixo dela. Mas não teve jeito.

A família de elefantes esperou e esperou... Eles esperaram para se reunir novamente. Esperando que tudo fosse como antes. Eles comeram tudo o que tinham à sua volta e começaram a ficar com fome. E sabiam que em breve teriam que partir.

Fragilmente, eles juntaram seus corpos formando uma cerca. E, então, muito devagar e com muita relutância, começaram a mover-se e se separaram.

Durante a noite se podia ouvir o pequeno elefante trombeteando sua solidão no escuro.


Trecho do espetáculo Every year, every day... I’m walking,
de Magnet Theatre (África do Sul)

.

quarta-feira, 3 de outubro de 2012

De como o Facebook minou qualquer escrita aprofundada.


"Maico,

Não tome esta carta como uma afronta, ou uma cobrança vazia sem razão. Não queria expor tua figura assim em público, mas não consigo pensar em outra maneira de me dirigir a você e de ter um retorno válido se não for por este meio. O fato é que tenho me sentido muito sozinho e gostaria de falar sobre isso. Andei me revisando nos últimos dias, pensando em tudo o que passamos juntos e relendo a quantidade infinita de coisas que você resolveu expressar através de mim. Foram épocas boas, ricas de conteúdo, onde eu te ajudava a entender algumas coisas do mundo e você criava meios de isso chegar até outras pessoas de uma maneira indireta e impactante. Lembra de quando você me revisitou e buscou vários textos que tinha escrito, chegando a montar um espetáculo com eles? Pois é... talvez isso não teria acontecido se você não tivesse trabalhado uma produção textual tão rica naquela época.

Vou direto ao ponto, para não parecer dar voltas sobre o mesmo assunto. Eu sei que o Facebook é popular e que todo mundo o “curte e compartilha”, mas é ele quem está minando nossa relação. Não, não é um ciúme besta de um site contra outro, mas desde que você começou a dar mais atenção a ele do que a mim, suas idéias ficaram mais vazias, mais imediatas e com menos – muitos menos! – poesia.

Vocês, os seres humanos, são sempre tão imediatistas... carregam tanto essa vontade de serem lidos imediatamente, de serem populares, de terem um número razoável de likes assim que postam qualquer coisa... todos buscando aprovação e aceitação o tempo inteiro em tempo real... já parou para pensar nisso, Maico...? Já se deu conta de que nessa tua busca por aceitação o teu conteúdo ficou cada vez mais vazio? Não que eu ache que sou a única maneira de provocar um engrandecimento do teu ser, não é isso. Mas sou um veículo para isso, entre tantos outros.

Quer exemplo concretos? Antigamente, quando você gostava de um vídeo, o recomendava aqui, como fez com o Darth ou com o Beirut. Isso valorizava o vídeo, você o tratava de uma maneira especial, colocava a letra das músicas que te diziam alguma coisa (lembra da Piaf? Ou do Johansen?). Lá no Facebook qualquer vídeo que você postou nos últimos tempos se perdeu... eles não ficaram marcados na tua história, perderam a importância que tiveram no momento.

Lembra das tuas reflexões sérias...? Não eram apenas gritos, eram poesia. Eu sei que você andou relendo Les Ephemères e se emocionou de novo. Eu sei que você revisitou suas reflexões de onze anos. Já imaginou o que tudo isso teria virado se fossem postagens de facebook? Provavelmente uma frasezinha para chamar atenção, alguns likes e comentários espirituosos e deu, teríamos um conteúdo para sempre perdido no limbo da internet. Aqui as coisas perduram... tanto as bizarrices (o que foi aquela notícia italiana?!) como os momentos sérios de conflito (Under Pressure... grande momento do teu espetáculo, não...?).

O que peço aqui é um pouco de atenção com quem te faz evoluir como pessoa: paradoxalmente, um meio eletrônico e tão artesanal como um simples blog. Este ano você publicou aqui apenas duas vezes. Você não construiu apenas duas idéias interessantes este ano. Além disso, você está devendo uma resposta ao comentário na postagem da bicicleta desde janeiro...! Isso não se faz...

Maico, lembra do teu compromisso assumido no dia em que eu nasci, há quatro anos. Você falaria aqui de ‘teatro, trânsito, vida, arte, viagens, amigos, cidades, remédios, materiais diversos, teatro, livros, cinema, comerciais, teatro, saudades, chatices, sofás, perguntas sem respostas, respostas sem perguntas, pesquisas, teatro, amigos, trânsito, impressoras, livros, dores, fatos, coisas, provas, música, sabonetes, luzes, carros, trilhas, portas, chãos, malas, chocolates, escadas rolantes, professores, teatro, tapetes, horas, joelhos, almofadas, enfeites, gente, leis, vinhos, hábitos, curiosidades, oportunidades, ditos, não ditos, cadeira de faculdade, cadeiras de madeira, sonhos, diálogos, desafios, balas, rios, anjos, astronomia, árvores, estupidezes, gentilezas, alegrias, pizzas, eletro-eletrônicos, férias, política e tomates.’ Continue falando disso. Você não será muito lido, nem muito aprovado, não terá muitos likes nem muitos comentários. Mas terá um pensamento construído, não apenas um pensamento jogado na rede.


Obrigado por me ouvir.


Um abraço grande,


Maico sem Ene."




sexta-feira, 29 de junho de 2012

Chega sexta!!!


Olha que coisa mais bonita, mais gostosa, mais vontade de apertar, mais flafstis e mais vontade de desejar que o tempo passe.
Enquanto isso, no mundo dos mortais, a sexta-feira é exaltada e a segunda-feira é menosprezada. As fotinhos de "chega sexta, chega sexta!" correm os murais do Brasil, os dias passam voando e o final de semana é cada vez mais exaltado. De outro lado as imagenzinhas, as coisinhas, os gatinhos, porquinhos, passarinhos, ornitorrincozinhos e ondinhas do marzinho nos dizem para aproveitar cada segundo porque a vida é feita de momentos. E um dia depois, as mesmas pessoas buscam para os seus murais as mensagenzinhas de "chega sexta, chega sexta!". E a vida passa diante delas, e os dias passam incógnitos, como atalhos para o grande e sonhado dia, que chega e vai embora, sem trazer nada demais. A sexta-feira se tornou uma das tantas pedras de Sísifo que os mortais insistem em carregar. Ela é rolada morro acima e, depois do trabalho realizado, volta a cair. E lá vão os mortais buscá-la de novo na segunda-feira. Com tudo isso, ninguém vê que o verdadeiro espírito da sexta-feira está dentro de cada um e que o nome de um dia é apenas um estopim para algo de bom e interessante acontecer. Quantas coisas maravilhosas já aconteceram na terça, na quinta ou até mesmo na segunda, veja só...! Outras imagens (de anjinhos, bebezinhos, cachorrinhos e outros inhos) nos dizem que o dia de ser feliz é hoje, pois o passado passou e o futuro talvez não chegue. Um pouco fatalista, talvez, mas não deixa de ter um fundinho de verdade. Mas se torna difícil crer que os mortais acreditem realmente nesta idéia quando proliferam tantos desejos de que o tempo passe tão rápido quanto possível. E passar para quê? Ele passará por si próprio. Sem dúvida passará. O que faz uma pessoa desejar que o tempo passe? O que ela fará com aquela pequena pérola rara chamada instante quando ele estiver em suas mãos? Idealizar um instante é como planejar um orgasmo: ele até vem, mas dura tão pouco em relação à expectativa criada, que a frustração acaba sendo maior do que a realização. Então, sei lá. Bóra relaxar um pouco e aceitar de vez em quando um orgasmo de meio de semana, afinal todo dia é dia de feira.

.

terça-feira, 17 de janeiro de 2012

Michel Teló e a bicicleta.

“Mãe, posso ir na casa do fulano? Não. Mas todo mundo vai. Mas você não é todo mundo.”

Michel Teló é o nome da vez. É um cara simpático, divertido, bonachão, que ganhou o mundo e o coração da galera. A música do cara é popular no Brasil e no exterior. E isso “legitimiza” a qualidade dela aqui, pois tudo o que faz sucesso lá fora deve ser bom e “representa nossa cultura”. Finalmente o Brasil começou a exportar música que faz os outros dançarem lá fora. Não continuaremos apenas a importar a Rhianna, a Shakira, a Lady Gaga, e os afins, mas temos condições de devolver ao mundo algo tão popular quanto. Isso somos nós, essa é a nossa cara, esta é a alegria e o despojamento do povo brasileiro.

Você concorda com o parágrafo anterior?
(  ) Sim  (  ) Não, com exceção das três primeiras frases.

Os que criticam o trabalho do cantor se confundem quanto ao alvo e acabam criticando o próprio cantor. No entanto, ponderemos: Michel Teló é apenas o quarto cantor a gravar o hit de 2008, juntando-se às bandas Os meninos de seu Zeh, Cangaia de Jegue e Garota Safada. A questão é um pouquinho mais profunda do que uma simples análise musical ou um ataque ao artista. Uma das autoras da letra, Sharon Acioly – responsável pela singular Dança do Quadrado –, respondeu esses dias a uma crítica de Bruno Medina, e disse, entre outras coisas, que foi criada ouvindo grandes artistas da MPB e que “sabe bem a diferença entre um gênero e outro e aprecia os dois, pois adora dançar.” O que me preocupa é justamente quem não tem paciência para saber que existem outros tipos de som e que toma certos estilos musicais como único estilo possível existente. Ou seja, o que me assusta no movimento Teló não é a música ou o cantor em si, mas o que isso reflete sobre nós, sociedade brasileira: uma sociedade onde a maioria das pessoas não busca sair da sua área de conforto e tem medo, preguiça, ou simplesmente não vai em busca do desconhecido porque nunca pensou nisso. A metáfora da música revela muito de nosso pensamento arraigado a valores com os quais convivemos desde sempre. 

--

Pequena pausa para uma historinha:
Adoro uma história contada por uma amiga cantora, quando depois de uma apresentação do seu coral foram para o restaurante da cidadezinha gaúcha e, com o povo reunido, o cantor pegou a gaita e disse: “Os senhores que me desculpem, tudo estava muito bonito lá no coral, mas isso aqui é que é música!” E puxou um vaneirão sob os aplausos do povo. E isso é perfeitamente compreensível em se tratando de uma cultura como a gaúcha, uma das mais consistentes e, talvez por isso, conservadoras no nosso país.

--

Em nossa cultura fomos aprendendo a valorizar sempre – e apenas – uma pessoa de cada vez. Nossa cultura valoriza o que é de massa, diminui o que “não junta muita gente”, e estandardiza alguns poucos profissionais como se fossem heróis. Particularmente, acredito que é necessário desconfiar de o que vem com o selo de qualidade da maioria, sempre. Eu sei que não é uma afirmação muito democrática, mas o fato é que massas são facilmente manipuláveis (existem muitos textos informais, como este, ou formais, como este, que tratam do assunto, no caso de não acreditarem em mim). Basta dar um rápido giro em alguns fóruns de discussões internéticas para constatarmos que de acordo com a maioria, hoje os artistas estariam sem seguro desemprego, leis de financiamento cultural não existiriam, o ex-presidente já estaria em estágio terminal e o mundo já teria acabado por alguma briga entre torcidas. Quando a Secretaria de Cultura do Estado do RS estava ameaçada de fechar no início do governo Yeda Crusius, fizemos uma mobilização em prol da classe artística e, em fóruns da página da Universidade Federal do Rio Grande do Sul em uma rede social, não foram poucos os que nos criticaram dizendo que a cultura não era nada importante para a sociedade e que qualquer dinheiro deveria ser utilizado para melhorar bens públicos como saúde, educação, e o discurso de sempre. Universitários dizendo isso, em 2007, são profissionais que em 2012 engrossam a massa.

--

Pequeno dado para antes de continuar lendo o texto excessivamente longo:

Alguém sabe quantos carros foram vendidos no Brasil em 2011?
Resposta: 3.633.006
– ou, simplesmente, dez mil novos carros por dia.

Isso mesmo que você leu. Com todo o atrolho de carros nas ruas e uma bomba relógio prestes a explodir (ou parar) o centro das grandes cidades, continua-se comprando carros. Afinal, “brasileiro é apaixonado por carro”, nós acreditamos nisso e seguimos comprando, ué!

--

Pergunta lugar-comum: Por que o velocímetro de um carro popular chega a 220Km/h se a velocidade máxima permitida é 100 Km/h?

--
 
Na Porto Alegre de 2012 está acontecendo um fenômeno digno de ser estudado por muitos sociólogos. É sério: eles deveriam passar um tempo andando de bicicleta por aqui para entender empiricamente o que acontece no trânsito desta cidade. Em uma época em que se discute mobilidade, congestionamentos, poluição e desenvolvimento sustentável, os debates afloraram sobre um dos meios de transporte mais limpos e saudáveis que temos notícia. Mas o fato é que em Porto Alegre está cada vez mais difícil andar de bicicleta. Dentro de pouco mais de um mês completaremos um ano do atropelamento em massa acontecido na cidade, e pouquíssimo foi feito em relação a isso. Inclusive o atropelador corre o risco de ser absolvido. As bicicletas são vistas com hostilidade pela maior parte dos motoristas, o poder público exige conversar com uma “liderança” do movimento “Bicicletada”, e não entendem que este movimento, por princípio, não tem liderança. Querem impor limites a um movimento do bem, que só exige mais amor e menos motor. Em qualquer lugar um pouco mais civilizado, um atropelamento como esse desencadearia uma série de ciclovias e projetos de educação e consciência aos motoristas – sim, porque ninguém está percebendo, mas as pessoas estão ficando loucas de verdade: o transito está estressando e enlouquecendo quem passa muito tempo ali. Mas em Porto Alegre essas medidas não tiveram espaço; em Porto Alegre tudo isso desencadeou ódio. O ódio dos motoristas em relação aos ciclistas. Aqueles que, como eu, andam de bicicleta pela cidade, sabem do que estou falando e sentem isso cada vez que alguém lança aquele olhar de profundo ódio por detrás do volante. A opinião pública de Porto Alegre está se voltando contra os ciclistas. Os jornais fazem campanhas indiretas em notas que parecem inofensivas, mas que estimulam o ódio. A cultura do automóvel está se voltando contra o “politicamente correto” (leia-se “chato”). Chato? Exato. Esse é o estigma que ganha quem não come carne, quem anda de bicicleta, quem separa o lixo, quem prefere filmes com áudio original legendados em sua língua e mais recentemente quem não dança o Ai se eu te pego. Essas pessoas são chatas para a “sociedade” quando começam a tentar mudar essa sociedade. E os que sabem que mudanças não são benvindas (e a própria palavra “benvinda”, mudada, me sai agora com dificuldade) e não tentam mudar nada, mas simplesmente viver sua vida, têm as suas vontades invadidas pelos hábitos da maioria e pela idéia de que todos devem pensar iguais. Ser “politicamente correto” no Brasil virou sinônimo de chatice, assim como agir com honestidade virou sinônimo de burrice.

Uma notinha inofensiva no jornal de maior circulação do RS.
É exatamente onde começamos a ter problemas infindáveis: no ponto onde perde-se o direito de não gostar do que a maioria gosta. Porque, meu amigo, se você mora no Brasil e não sabe quem é o personagem da novela, o bordão do momento, o nome do estuprador em horário nobre ou a escalação do seu time (Deus o livre se não tiver um time!!), você terá problemas seríssimos.

Maaaaaaas...

quem está se opondo a este movimento todo está errando na dose de munição: não adianta volver-se contra a multidão e gritar contra ela. Porque ela simplesmente te crivará suas opiniões, te desacreditará e passará por sobre o teu cadáver! A opinião pública (e os motoristas de ônibus, os taxistas e os atropeladores de multidões) passarão por cima da tua bike. Eis a verdade para quem enriquece seus discursos com exemplos eruditos demais, e às vezes equivocados e lugar-comum. Colar a letra de Ai se eu te pego no seu blog e compará-la com uma poesia barroca não vai adiantar nada na conversão. Também não adianta chamar o Chico e o Caetano para ajudar na artilharia. Não vale a pena ganhar a antipatia de quem você, que fala de poesia, gostaria de abrir os olhos para a arte bem-feita do país. É por isso que essas pessoas, tão bem intencionadas, são chamadas carinhosamente de pseudo-intelectuais.

Michel Teló existe, é simpático, e vai continuar existindo para sempre. Ele já se chamou Luan Santana, Latino, Nx Zero, Gaiola da Popozudas, Bonde do Tigrão, É o Tchan, e até – vai me doer dizer isso – Mamonas Assassinas. Ele já se chamou “Olimpíada”, “final do capítulo da novela das oito” e “final do Big Brother”. Ele já se chamou “Copa do Mundo”, e vai se chamar assim de novo dentro de dois anos. Uma vez por ano ele se chama “Campeonato Brasileiro”, mas essa dura mais de oito meses. O que a gente precisa aprender é deixar a diversão para o momento da diversão, e falar (bem) sério quando for necessário. E sério é sério (não suporto passeatas “com bom humor”). Difícil é convencer alguém a deixar um pouco de lado os passinhos da música e olhar além, no mundo. Difícil é desafiá-lo a desconfiar quando a televisão passa repetidamente e exaustivamente aquela mesma imagem daquele ciclista que passou no meio dos carros e que o trata como se ele estivesse colocando uma bomba ali ou algo parecido. Difícil é dizer sem ofender que esta pessoa pode estar sendo manipulada naquele exato momento e nem sequer desconfiar disso.

Correntes especulativas dizem que o estupro no Big Brother é apenas uma jogada de marketing da própria emissora. Agora, a questão bem colocada por Juremir Machado é que chegamos ao ápice da chinelagem quando um estupro em horário nobre serve como estratégia de marketing. O que está acontecendo nesse Brasil de 2012 não caberia na letra da música da Legião dos anos noventa. Literalmente: está tudo errado, está tudo invertido. Se inverteu o que é bom, ou ruim, permitido ou negado, creditado ou descreditado. Nem nas leis não se pode mais confiar. Não esqueçamos que a pior classe de foras-da-lei que atua no país age dentro delas, pois eles próprios as criam. Esses "foras-da-lei-dentro-dela" aproveitam momentos de distração do povo, para cometer atrocidades inimagináveis. Ou você esqueceu que Jader Barbalho tomou posse no Senado no dia 28 de dezembro, (em pleno recesso parlamentar!!!) às escondidas, tendo que convocar de última hora 10 parlamentares para presenciar a cerimônia? Espero que também não se esqueça que os deputados federais aprovaram em 22 de dezembro de 2010 o seu aumento, e ao voltar em fevereiro de 2011 tinham 60% a mais de salário e que, um ano antes, e faltando uma semana para o carnaval, foi quando o STF começou a colocar pressão para ter seus salários aumentados, fato que aconteceu sete meses depois, em 23 de setembro? Algo em comum entre esses fatos? Todos aconteceram durante o verão no hemisfério sul, enquanto o povo dançava alucinadamente o hit do verão. Esta semana – janeiro de 2012 – o SATED, Sindicato que representa a categoria artística no RS, está lutando para reunir o máximo possível de pessoas para impedir a PL410/ 2011, emenda que acaba com muitos direitos conquistados ao longo dos anos para a classe artística, divide verbas de cultura e de esporte, entre outras áreas, e é vendida como se fosse uma maravlha - como se vê no link aí atrás. Ela foi votada super rápido, no dia 21 de dezembro, e que vai ser sancionada pelo atual governador dia 17, hoje, se nada for feito. É assim. É no verão, em menos de um mês. Rápido, não? Quando foi a última vez que você viu uma decisão ser tomada assim, tão rápido? É quando as pessoas saem da cidade e os sindicatos não conseguem reunir um número expressivo. É quando todos vão para a praia e se desligam no noticiário – isso quando o noticiário noticia esse fato.

Qual é a nossa prioridade em discussões internéticas, afinal?
Enquanto isso, na internet, os revolucionários ficam sentados imaginando como seria um mundo melhor, reclamando dos cachorrinhos espancados, dos hospitais sem condição, do “Mulheres Ricas”, e dos etecéteras, marcando a si mesmo em fotinhos de facebook com os dizeres “Esta pessoa bla bla bla...”. De minha parte tento ser consciente de que eu não posso obrigar as pessoas a ler, ou a ir ao cinema ou ao teatro. Elas provavelmente adorariam quando fossem, mas eu não tenho o direito de empurrá-las para sua primeira experiência. Como diz um amigo de Brasília sobre nossa insistência com bicicletas e com transporte público de qualidade, nosso nível de exigência é alto porque já tivemos a possibilidade de confirmar que o sistema pode funcionar, e já o vimos em funcionamento em outras ocasiões. Difícil é convencer quem ainda não viu e ainda está preso à sua primeira visão sobre o assunto.

Enquanto isso, fico sentado na frente do computador em dia de sancionamento de lei polêmica, pensando sobre o mundo e fazendo o que me dá a sensação de que estou agindo, sabendo que não adianta nada e que pouquíssimos chegaram a ler até aqui este texto longuíssimo. Acho que vou fazer uma imagem de facebook dizendo algo do tipo: “Esta pessoa tinha ímpetos revolucionários”. Ou, em clima de Shortbus (filme fantástico, vale a pena ver), acabar este texto com uma bela citação: “Antigamente eu queria mudar o mundo, agora eu só quero deixar este lugar com um mínimo de dignidade”.

--

Em tempo: Televisão, Retrospectiva 2011, Record ou Globo. Quem assistiu? Alguém viu a retrospectiva sobre o atropelamento em massa, ocorrido em Porto Alegre...? Pois é, eu também não.

--

A propósito:

Lucas Napoli faz uma análise sobre movimentos de massa que mudam sistemas, seja na política ou no futebol. (Leia aqui)

João Baldi Jr. analisa tudo o que a gente não deveria discutir. (Leia aqui)

A época do bom senso já passou. (Literatortura é um ótimo nome, não?). (Leia aqui)

Câmara reembolsa 135 milhões aos deputados. (Leia aqui)


.

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...