“Hoje é aniversário da minha mãe e eu decidi de lhe comprar um presente como todos os anos desde o ano passado, porque antes eu era muito pequeno.
Peguei uns pilas que tinha no meu porquinho e tinha bastante, felizmente, porque por acaso minha mãe me deu dinheiro ontem. Eu sabia o presente que eu daria à ela: flores para colocar no grande vaso azul da sala. Um buquê enorme, gigantesco.
Na escola, eu estava estranhamente impaciente para que a aula terminasse para que eu pudesse ir comprar meu presente. Para não perder meu dinheiro, fiquei com a mão no bolso o tempo todo, até para jogar futebol durante o recreio, mas como eu não jogo no gol, isso não tem importância. O goleiro era o Alceste, um amigo bem gordo que adora comer. ‘Que que tu tá correndo com uma mão só?’, ele me perguntou. Quando eu expliquei que era porque eu ia comprar flores para minha mãe, ele me disse que ele preferiria alguma coisa de comer, um bolo, balas, ou uma salsicha, mas como o presente não era para ele, eu nem prestei atenção e fiz um gol. Ganhamos de 44 a 32. (...)”
Essa semana entrou a primavera. De uma hora para outra começaram a aparecer flores nas árvores, sol no céu, graus nos termômetros. Até um chinelo nos meus pés apareceu, durante um passeio de uma journée inteira.
O contexto favoreceu a realização de um sonho antigo que tinha desde que descobri que a prefeitura mantinha um serviço de aluguel de bicicletas público: estreei no Velib’.
Quem me conhece sabe o quanto eu primo pela bicicleta. Nunca fui um ciclista de carteirinha, é verdade, mas desde que a passagem do ônibus começou a subir desenfreadamente em Porto Alegre, não tive escolha, senão subir as lombas da cidade na força. Daí ao hábito foi uma pedalada – além de ecológico e saudável, percorrer as ruas de uma cidade sobre duas rodas (sem motor) é algo, digamos, libertador. Aí, imaginem a felicidade de quem passou seis meses de inverno entocado no metrô e retornou de repente para um velho maravilhoso hábito, se perdendo – quase todas as vezes – nessas ruas tão bonitinhas. Fechem os olhos, imaginem uma pessoa numa propaganda de sabão em pó pedalando no meio de um campo florido: era eu.
Mas nem tudo são flores na vida de Joseph Climber. A bicicleta pode também ser um hábito perigoso, infelizmente. Sempre me disseram isso, e sempre achei que teria que existir uma forma de pedalar em paz, sem se preocupar com esses malucos que andam por aí, atrás dos volantes que protegem tão bem seus mau-humores, suas pressas e seus desrespeitos para com quem não tem uma máquina em volta do próprio corpo para se proteger.
Ontem ensinei um amigo alemão sobre como usufruir dos serviços do Velib’. Antes de andar, ele estava com medo, dizendo que em Bremen a coisa não é muito fácil. Mas após alguns curtos relatos, me dei conta que a cidade dele é um paraíso se comparado com Porto Alegre. Me lembrei das 4002 vezes que os taxistas cortaram a minha frente na Riachuelo quando queriam entrar na Caldas Júnior sem dar sinal de luz, da zona que é pedalar na Júlio, ou na Bento, com os ônibus tirando tinta (literalmente) do meu meio de transporte, além de inúmeros outros casos e desaforos que já escutei durante minhas idas e vindas.
Em Paris, as bicicletas andam como os carros. Paramos nas faixas de segurança. Paramos no sinal vermelho, mesmo quando não está passando ninguém. Para ultrapassar um ônibus estacionado, nem precisa fazer sinal para o motorista que vem atrás: ele mesmo desacelera para que possamos andar um pouco mais à esquerda. Claro que nem tudo é perfeito, visto as campanhas que existem sobre segurança no trânsito de bicicletas e conscientização de motoristas. Mas se lá de onde eu venho os motoristas tivessem a metade do respeito que esses aqui tem...! Ou medo, sei lá, já que a incomodação está garantida para o motorista se ele fizer algo contra um ciclista...
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Hoje me deparei com a história da Márcia, relatada no Boteco Sujo. É incrível como é necessário que vidas se percam para que assuntos importantes voltem a ser moda. Bicicleteira de carteirinha, ela ia pela Paulista quando um ônibus a transformou em estatística. (O resto da história está no link aí em cima, narrado com inteligência e precisão. Clica que vale a pena.)
O que me chama atenção é que ela não fazia corpo mole, não tinha medo do trânsito nem de responder para motorista mal-educado. Seus escritos revelam o quanto ela amava ser ciclista e o quanto ficaria feliz se morresse pedalando. O título desta postagem é uma frase sua.
Deixo aqui o vídeo da homenagem que para ela fizeram. Um minuto de silêncio em frente à bicicleta fantasma, no final de janeiro passado, com direito a um trovão que chegou estrategicamente para encerrá-lo.
Amanhã tenho um curso bem cedo. Farei questão de sair mais cedo ainda, pegar um Velib’ e cruzar a cidade pedalando, respeitando todas as regras, parando em todos os sinais vermelhos, em todas as faixas de pedestre, aproveitando bem todas as vias especialmente dedicadas a nós, ciclistas. Minha forma de homenagear a Márcia e todos os ciclistas que quiseram ser livres e pagaram com a vida. Minha forma de homenagear os ciclistas de São Paulo que não pararão de pedalar mesmo se amanhã ou depois perderem mais um amigo. Minha forma de homenagear os ciclistas de Porto Alegre, dos quais eu fiz e voltarei dentro em breve a fazer parte.
É uma maravilha podermos estar conectados, assistindo on line a programação da emissora. Eles começaram a transmissão do Prêmio Açorianos e Tibicuera com uma frase que dizia (mais ou menos) assim: “estamos ao vivo do Teatro Renascença, para a cerimônia de entrega dos prêmios la la la...”. Alguém falou sobre a importância da emissora estar transmitindo, o apoio que ela dá à cultura gaúcha e la la la. Balela. Pura e simples balela comercial.
É uma pena que a única emissora que faça a transmissão só esteja preocupada em lucrar em cima disso. No meio do programa (do meio para o final!!!) cortaram a transmissão do prêmio para o desfile Donna Fashion! Sim, meus amigos, não transmitiram os prêmios de Dramaturgia, Direção e Melhor Espetáculo. Nada contra os desfiles de moda, mas a minha paciência, assim como a ética deles, tem limite.
Eu confiei na palavra da emissora. Cheguei a gritar “Viva TvCOM” quando anunciaram o primeiro prêmio do nosso grupo de trabalho. Mas, para meu espanto e surpresa, algum tempo depois, percebi que tinha sido enganado.
Liguei pra emissora.
Após alguns entreveros telefônicos, o cara me passou com um moço simpático que estava ao vivo com a programação da TvCom. O cara me explicou que o Prêmio tinha excedido o tempo de transmissão, e que em vista disso tinham passado ao programa seguinte.
E por quê?
Bom, em linhas gerais: a TvCom tem contrato tanto com o Açorianos quanto com o Donna Fashion. Na grade de programação da emissora, consta “20h30 – Prêmio Açorianos de Teatro e Dança, 22h – Estilo Moda, 22h28 – Previsão do Tempo e 22h30 – Conversas Cruzadas.”
Primeiro: Nunca vi nenhuma cerimônia de Açorianos que tenha durado só 1h30.
Segundo: A mulher, na cerimônia, disse, ao cortar: “Vamos ao Donna Fashion, e quando anunciarem o prêmio de melhor Espetáculo você o verá em tela dividida.”
Terceiro: Sim, dividiram a tela e mostraram o pessoal do Tablao comemorando o prêmio em Dança. Som? Pra quê, se tinha música de desfile na outra metade da tela?
Quarto: A tela do Açorianos saiu de quadro como entrou: de repente. Com o pessoal do Tablao ali, fazendo festa. Nunca mais voltaram ao prêmio. Enquanto escrevo este texto, ainda não sei como prosseguiu a festa. E olha que voltei a assistir o Donna Fashion, a Previsão do Tempo e o Conversas Cruzadas.
E amanhã (ou daqui a pouco) estará estampado no site da empresa o quanto ela valoriza a cultura local e distribui prêmios por votações populares.
E aqui, tão clown quantos os apresentadores da festa gaúcha, nariz de palhaço vermelho combinando com os olhos sonolentos de quem esperou até às 4h da manhã (fuso horário = 5h a mais) para não ver o final da festa, agradeço a propaganda enganosa, o desserviço prestado à nossa cultura e a falta de consideração para com aqueles que acompanham o trabalho da emissora.
Tem gente que sabe contar uma história, e o mexicano Guillermo Arriaga o faz como ninguém. Mantendo o mesmo estilo que o consagrou nos roteiros de Amores Perros, 21 Gramas e Babel, o diretor e roteirista – ou “escritor para cinema” – traça com a mesma precisão de sempre a história de várias histórias que se encontrarão em um ponto específico da trama. E isso não é pouco. Já é bem complicado apenas o fato de “contar um fato do ponto de vista de vários personagens”, mas fazê-lo mexendo no tempo e no espaço da forma como ele o faz é louvável, digno de nota cem com estrelinha.
A trama de Burning Plain envolve quatro histórias: dois casais “Romeu e Julieta” – um adolescente e outro um pouco mais velho –, uma moça com problemas para se relacionar e uma outra moça bem mais novinha que também tem um problema. Tá, eu sei, todo mundo tem problemas, mas não dá pra falar sem avançar na história e revelar segredos – e não é esse o foco. Aliás, o que chama muita atenção no trabalho do diretor citado é a forma como ele consegue trabalhar os acontecimentos de forma que algo cotidiano se torna impressionantemente cênico e dramático. O segredo escondido nos detalhes, sem dúvida nenhuma, é o grande ponto forte da sua escrita.
Com um elenco forte e muito bem escolhido. Destaque para a Charlize e a Jennifer.
Segue o trailler – o qual confesso que não gosto muito. Bem, uma vez o filme visto, compreenderão o porque de ele não me agradar.