terça-feira, 17 de janeiro de 2012

Michel Teló e a bicicleta.

“Mãe, posso ir na casa do fulano? Não. Mas todo mundo vai. Mas você não é todo mundo.”

Michel Teló é o nome da vez. É um cara simpático, divertido, bonachão, que ganhou o mundo e o coração da galera. A música do cara é popular no Brasil e no exterior. E isso “legitimiza” a qualidade dela aqui, pois tudo o que faz sucesso lá fora deve ser bom e “representa nossa cultura”. Finalmente o Brasil começou a exportar música que faz os outros dançarem lá fora. Não continuaremos apenas a importar a Rhianna, a Shakira, a Lady Gaga, e os afins, mas temos condições de devolver ao mundo algo tão popular quanto. Isso somos nós, essa é a nossa cara, esta é a alegria e o despojamento do povo brasileiro.

Você concorda com o parágrafo anterior?
(  ) Sim  (  ) Não, com exceção das três primeiras frases.

Os que criticam o trabalho do cantor se confundem quanto ao alvo e acabam criticando o próprio cantor. No entanto, ponderemos: Michel Teló é apenas o quarto cantor a gravar o hit de 2008, juntando-se às bandas Os meninos de seu Zeh, Cangaia de Jegue e Garota Safada. A questão é um pouquinho mais profunda do que uma simples análise musical ou um ataque ao artista. Uma das autoras da letra, Sharon Acioly – responsável pela singular Dança do Quadrado –, respondeu esses dias a uma crítica de Bruno Medina, e disse, entre outras coisas, que foi criada ouvindo grandes artistas da MPB e que “sabe bem a diferença entre um gênero e outro e aprecia os dois, pois adora dançar.” O que me preocupa é justamente quem não tem paciência para saber que existem outros tipos de som e que toma certos estilos musicais como único estilo possível existente. Ou seja, o que me assusta no movimento Teló não é a música ou o cantor em si, mas o que isso reflete sobre nós, sociedade brasileira: uma sociedade onde a maioria das pessoas não busca sair da sua área de conforto e tem medo, preguiça, ou simplesmente não vai em busca do desconhecido porque nunca pensou nisso. A metáfora da música revela muito de nosso pensamento arraigado a valores com os quais convivemos desde sempre. 

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Pequena pausa para uma historinha:
Adoro uma história contada por uma amiga cantora, quando depois de uma apresentação do seu coral foram para o restaurante da cidadezinha gaúcha e, com o povo reunido, o cantor pegou a gaita e disse: “Os senhores que me desculpem, tudo estava muito bonito lá no coral, mas isso aqui é que é música!” E puxou um vaneirão sob os aplausos do povo. E isso é perfeitamente compreensível em se tratando de uma cultura como a gaúcha, uma das mais consistentes e, talvez por isso, conservadoras no nosso país.

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Em nossa cultura fomos aprendendo a valorizar sempre – e apenas – uma pessoa de cada vez. Nossa cultura valoriza o que é de massa, diminui o que “não junta muita gente”, e estandardiza alguns poucos profissionais como se fossem heróis. Particularmente, acredito que é necessário desconfiar de o que vem com o selo de qualidade da maioria, sempre. Eu sei que não é uma afirmação muito democrática, mas o fato é que massas são facilmente manipuláveis (existem muitos textos informais, como este, ou formais, como este, que tratam do assunto, no caso de não acreditarem em mim). Basta dar um rápido giro em alguns fóruns de discussões internéticas para constatarmos que de acordo com a maioria, hoje os artistas estariam sem seguro desemprego, leis de financiamento cultural não existiriam, o ex-presidente já estaria em estágio terminal e o mundo já teria acabado por alguma briga entre torcidas. Quando a Secretaria de Cultura do Estado do RS estava ameaçada de fechar no início do governo Yeda Crusius, fizemos uma mobilização em prol da classe artística e, em fóruns da página da Universidade Federal do Rio Grande do Sul em uma rede social, não foram poucos os que nos criticaram dizendo que a cultura não era nada importante para a sociedade e que qualquer dinheiro deveria ser utilizado para melhorar bens públicos como saúde, educação, e o discurso de sempre. Universitários dizendo isso, em 2007, são profissionais que em 2012 engrossam a massa.

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Pequeno dado para antes de continuar lendo o texto excessivamente longo:

Alguém sabe quantos carros foram vendidos no Brasil em 2011?
Resposta: 3.633.006
– ou, simplesmente, dez mil novos carros por dia.

Isso mesmo que você leu. Com todo o atrolho de carros nas ruas e uma bomba relógio prestes a explodir (ou parar) o centro das grandes cidades, continua-se comprando carros. Afinal, “brasileiro é apaixonado por carro”, nós acreditamos nisso e seguimos comprando, ué!

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Pergunta lugar-comum: Por que o velocímetro de um carro popular chega a 220Km/h se a velocidade máxima permitida é 100 Km/h?

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Na Porto Alegre de 2012 está acontecendo um fenômeno digno de ser estudado por muitos sociólogos. É sério: eles deveriam passar um tempo andando de bicicleta por aqui para entender empiricamente o que acontece no trânsito desta cidade. Em uma época em que se discute mobilidade, congestionamentos, poluição e desenvolvimento sustentável, os debates afloraram sobre um dos meios de transporte mais limpos e saudáveis que temos notícia. Mas o fato é que em Porto Alegre está cada vez mais difícil andar de bicicleta. Dentro de pouco mais de um mês completaremos um ano do atropelamento em massa acontecido na cidade, e pouquíssimo foi feito em relação a isso. Inclusive o atropelador corre o risco de ser absolvido. As bicicletas são vistas com hostilidade pela maior parte dos motoristas, o poder público exige conversar com uma “liderança” do movimento “Bicicletada”, e não entendem que este movimento, por princípio, não tem liderança. Querem impor limites a um movimento do bem, que só exige mais amor e menos motor. Em qualquer lugar um pouco mais civilizado, um atropelamento como esse desencadearia uma série de ciclovias e projetos de educação e consciência aos motoristas – sim, porque ninguém está percebendo, mas as pessoas estão ficando loucas de verdade: o transito está estressando e enlouquecendo quem passa muito tempo ali. Mas em Porto Alegre essas medidas não tiveram espaço; em Porto Alegre tudo isso desencadeou ódio. O ódio dos motoristas em relação aos ciclistas. Aqueles que, como eu, andam de bicicleta pela cidade, sabem do que estou falando e sentem isso cada vez que alguém lança aquele olhar de profundo ódio por detrás do volante. A opinião pública de Porto Alegre está se voltando contra os ciclistas. Os jornais fazem campanhas indiretas em notas que parecem inofensivas, mas que estimulam o ódio. A cultura do automóvel está se voltando contra o “politicamente correto” (leia-se “chato”). Chato? Exato. Esse é o estigma que ganha quem não come carne, quem anda de bicicleta, quem separa o lixo, quem prefere filmes com áudio original legendados em sua língua e mais recentemente quem não dança o Ai se eu te pego. Essas pessoas são chatas para a “sociedade” quando começam a tentar mudar essa sociedade. E os que sabem que mudanças não são benvindas (e a própria palavra “benvinda”, mudada, me sai agora com dificuldade) e não tentam mudar nada, mas simplesmente viver sua vida, têm as suas vontades invadidas pelos hábitos da maioria e pela idéia de que todos devem pensar iguais. Ser “politicamente correto” no Brasil virou sinônimo de chatice, assim como agir com honestidade virou sinônimo de burrice.

Uma notinha inofensiva no jornal de maior circulação do RS.
É exatamente onde começamos a ter problemas infindáveis: no ponto onde perde-se o direito de não gostar do que a maioria gosta. Porque, meu amigo, se você mora no Brasil e não sabe quem é o personagem da novela, o bordão do momento, o nome do estuprador em horário nobre ou a escalação do seu time (Deus o livre se não tiver um time!!), você terá problemas seríssimos.

Maaaaaaas...

quem está se opondo a este movimento todo está errando na dose de munição: não adianta volver-se contra a multidão e gritar contra ela. Porque ela simplesmente te crivará suas opiniões, te desacreditará e passará por sobre o teu cadáver! A opinião pública (e os motoristas de ônibus, os taxistas e os atropeladores de multidões) passarão por cima da tua bike. Eis a verdade para quem enriquece seus discursos com exemplos eruditos demais, e às vezes equivocados e lugar-comum. Colar a letra de Ai se eu te pego no seu blog e compará-la com uma poesia barroca não vai adiantar nada na conversão. Também não adianta chamar o Chico e o Caetano para ajudar na artilharia. Não vale a pena ganhar a antipatia de quem você, que fala de poesia, gostaria de abrir os olhos para a arte bem-feita do país. É por isso que essas pessoas, tão bem intencionadas, são chamadas carinhosamente de pseudo-intelectuais.

Michel Teló existe, é simpático, e vai continuar existindo para sempre. Ele já se chamou Luan Santana, Latino, Nx Zero, Gaiola da Popozudas, Bonde do Tigrão, É o Tchan, e até – vai me doer dizer isso – Mamonas Assassinas. Ele já se chamou “Olimpíada”, “final do capítulo da novela das oito” e “final do Big Brother”. Ele já se chamou “Copa do Mundo”, e vai se chamar assim de novo dentro de dois anos. Uma vez por ano ele se chama “Campeonato Brasileiro”, mas essa dura mais de oito meses. O que a gente precisa aprender é deixar a diversão para o momento da diversão, e falar (bem) sério quando for necessário. E sério é sério (não suporto passeatas “com bom humor”). Difícil é convencer alguém a deixar um pouco de lado os passinhos da música e olhar além, no mundo. Difícil é desafiá-lo a desconfiar quando a televisão passa repetidamente e exaustivamente aquela mesma imagem daquele ciclista que passou no meio dos carros e que o trata como se ele estivesse colocando uma bomba ali ou algo parecido. Difícil é dizer sem ofender que esta pessoa pode estar sendo manipulada naquele exato momento e nem sequer desconfiar disso.

Correntes especulativas dizem que o estupro no Big Brother é apenas uma jogada de marketing da própria emissora. Agora, a questão bem colocada por Juremir Machado é que chegamos ao ápice da chinelagem quando um estupro em horário nobre serve como estratégia de marketing. O que está acontecendo nesse Brasil de 2012 não caberia na letra da música da Legião dos anos noventa. Literalmente: está tudo errado, está tudo invertido. Se inverteu o que é bom, ou ruim, permitido ou negado, creditado ou descreditado. Nem nas leis não se pode mais confiar. Não esqueçamos que a pior classe de foras-da-lei que atua no país age dentro delas, pois eles próprios as criam. Esses "foras-da-lei-dentro-dela" aproveitam momentos de distração do povo, para cometer atrocidades inimagináveis. Ou você esqueceu que Jader Barbalho tomou posse no Senado no dia 28 de dezembro, (em pleno recesso parlamentar!!!) às escondidas, tendo que convocar de última hora 10 parlamentares para presenciar a cerimônia? Espero que também não se esqueça que os deputados federais aprovaram em 22 de dezembro de 2010 o seu aumento, e ao voltar em fevereiro de 2011 tinham 60% a mais de salário e que, um ano antes, e faltando uma semana para o carnaval, foi quando o STF começou a colocar pressão para ter seus salários aumentados, fato que aconteceu sete meses depois, em 23 de setembro? Algo em comum entre esses fatos? Todos aconteceram durante o verão no hemisfério sul, enquanto o povo dançava alucinadamente o hit do verão. Esta semana – janeiro de 2012 – o SATED, Sindicato que representa a categoria artística no RS, está lutando para reunir o máximo possível de pessoas para impedir a PL410/ 2011, emenda que acaba com muitos direitos conquistados ao longo dos anos para a classe artística, divide verbas de cultura e de esporte, entre outras áreas, e é vendida como se fosse uma maravlha - como se vê no link aí atrás. Ela foi votada super rápido, no dia 21 de dezembro, e que vai ser sancionada pelo atual governador dia 17, hoje, se nada for feito. É assim. É no verão, em menos de um mês. Rápido, não? Quando foi a última vez que você viu uma decisão ser tomada assim, tão rápido? É quando as pessoas saem da cidade e os sindicatos não conseguem reunir um número expressivo. É quando todos vão para a praia e se desligam no noticiário – isso quando o noticiário noticia esse fato.

Qual é a nossa prioridade em discussões internéticas, afinal?
Enquanto isso, na internet, os revolucionários ficam sentados imaginando como seria um mundo melhor, reclamando dos cachorrinhos espancados, dos hospitais sem condição, do “Mulheres Ricas”, e dos etecéteras, marcando a si mesmo em fotinhos de facebook com os dizeres “Esta pessoa bla bla bla...”. De minha parte tento ser consciente de que eu não posso obrigar as pessoas a ler, ou a ir ao cinema ou ao teatro. Elas provavelmente adorariam quando fossem, mas eu não tenho o direito de empurrá-las para sua primeira experiência. Como diz um amigo de Brasília sobre nossa insistência com bicicletas e com transporte público de qualidade, nosso nível de exigência é alto porque já tivemos a possibilidade de confirmar que o sistema pode funcionar, e já o vimos em funcionamento em outras ocasiões. Difícil é convencer quem ainda não viu e ainda está preso à sua primeira visão sobre o assunto.

Enquanto isso, fico sentado na frente do computador em dia de sancionamento de lei polêmica, pensando sobre o mundo e fazendo o que me dá a sensação de que estou agindo, sabendo que não adianta nada e que pouquíssimos chegaram a ler até aqui este texto longuíssimo. Acho que vou fazer uma imagem de facebook dizendo algo do tipo: “Esta pessoa tinha ímpetos revolucionários”. Ou, em clima de Shortbus (filme fantástico, vale a pena ver), acabar este texto com uma bela citação: “Antigamente eu queria mudar o mundo, agora eu só quero deixar este lugar com um mínimo de dignidade”.

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Em tempo: Televisão, Retrospectiva 2011, Record ou Globo. Quem assistiu? Alguém viu a retrospectiva sobre o atropelamento em massa, ocorrido em Porto Alegre...? Pois é, eu também não.

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A propósito:

Lucas Napoli faz uma análise sobre movimentos de massa que mudam sistemas, seja na política ou no futebol. (Leia aqui)

João Baldi Jr. analisa tudo o que a gente não deveria discutir. (Leia aqui)

A época do bom senso já passou. (Literatortura é um ótimo nome, não?). (Leia aqui)

Câmara reembolsa 135 milhões aos deputados. (Leia aqui)


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segunda-feira, 19 de dezembro de 2011

Breves reflexões de um menino de onze anos

Hoje, 17 anos depois, o dia 19 de dezembro cai novamente em uma segunda-feira. Dessa vez não chove. O dia está lindo, o sol radiante. Naquele dia choveu. Desabou o mundo sobre a cidadezinha trazendo consigo a notícia da tragédia. O menino de onze anos descobria que, na vida, muitas vezes o crescimento traz consigo a dor. Descobria que não seria sempre que teria por perto algumas pessoas com as quais estava acostumado. Descobria o mundo através de outro ponto de vista. Dezessete anos depois o sol brilha, o menino de onze anos olha para trás e tenta enxergar o que significava esse outro ponto de vista. A chuva já passou por aqui e eu mesmo que cuidei de secar. Se já secou mesmo, não se sabe. Talvez não, talvez nunca. A dor traz consigo o crescimento, impossível prever como seria se.

Abre o sinal, o ônibus arranca, a vida avança.
 
it's hard to hold a candle in the cold december rain.

Stanislavskyanamente falando...

Seguidamente algumas pessoas me perguntam o que acho de Stanislavsky e suas técnicas de “teatro psicológico” e que fazem as pessoas “sofrerem enquanto atuam”. A essas perguntas somam-se uma expectativa de que talvez eu vá falar mal do russo, porque prefiro trabalhar com um “teatro físico” (notem que tudo o que define grosseiramente alguma coisa está entre aspas, hein...?).

Pois bem, minha resposta sempre vai pelo mesmo caminho: Imaginem uma transição de século XIX / XX, onde o tipo de atuação em vigor era declamatório, sem muitas construções de personagem, onde ninguém pensava muito nisso, e apenas contar os versos de um poema e saber dizê-lo de acordo com os parâmetros da época era o suficiente para termos uma definição de “bom ator”. Imaginem que nesse contexto alguém que comece a pensar em trabalho de ator, comece seu trabalho a partir do zero, sem ter muito onde apoiar-se. Seria muito normal que essa pessoa se apoiasse em outras áreas, como a das novas descobertas sobre o inconsciente, para embasar seus experimentos. Digamos que alguém devesse abrir essa porta, mesmo que alguns pontos do seu estudo fossem negados depois – por ele próprio.
                                                             
Aí está o valor das teorias de Stanislavsky: o pioneirismo e a posterior coragem de voltar atrás e dizer que algo estava errado. Mas convenhamos que, se não fosse esse erro inicial, não haveria novas e importantes conclusões a respeito do trabalho do ator.

Existe uma grande – e desnecessária – tendência a negar Stanislavsky, como se ele fosse um monstro da psicologia que invade o palco do ator postcontemporâneo. Em um rápido tour por alguma escola/ faculdade/ conservatório/ casting podemos facilmente captar trechos de conversas protagonizados por atores em formação que já repetem milhares de “frases feitas” contra o russo. Ou seja, existe toda uma geração de profissionais em formação que antes de conhecer o assunto, já começa a descredenciá-lo. E isso – sempre termino minha resposta com essa brilhante conclusão – não é legal.

- “Mas eu achava que você gostasse mais de teatro físico, de Mímica Corporal, Decroux e Grotowsky... como é que pode você defender Stanislavsky?”
- “Ué, mas não dizem que provavelmente se Stanislavsky estivesse vivo hoje, provavelmente estaria na linha de Grotowsky? E a expressão ‘ação física’, cunhada pelo russo, o que significa exatamente, eh?”

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Essa questão voltou à minha mente em razão de algumas conversas que tivemos nos ensaios de Kassandra. Na mesma semana, me deparei com um livro de Anne Bogart, chamado “A preparação do diretor”, onde em determinado momento ela explica a origem do equivoco a propósito de Stanislavsky no teatro norte-americano. Achei digno transcrever o trecho inteiro, sempre é interessante revisarmos na nossa história a origem de alguns mal-entendidos para compreendermo-nos hoje. E se for a Anne Bogart que nos explica... bom, aí – vou terminar minha parte do texto com essa brilhante conclusão – é legal.

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Com vocês, mistress Bogart:

O final dos anos 1920 trouxe a Depressão. O vaudeville, a jóia da coroa do entretenimento popular norte-americano, morreu quando os filmes falados substituíram a arte dos filmes mudos. A absorção do talento pelo cinema começou a diluir o vigor do palco. Um novo método para atores, baseado nas antigas teorias do russo Konstantin Stanislavsky, veio a dominar nossa abordagem da representação pelo resto desse século.
            Stanislavsky e sua companhia, o Teatro de Arte de Moscou, apresentaram peças de Tchekov e Gorky nos Estados Unidos, durante os anos de 1923 e 1924. Quando chegaram aos Estados Unidos, essas produções já tinham quase vinte anos e apenas refletiam as primeiríssimas experiências de Stanislavsky com a “memória emotiva” e a “concentração interna”. Mas para as sensibilidades norte-americanas, essa revolucionária abordagem da representação teve um tremendo impacto sobre os jovens do teatro, entre eles Lee Strasberg, Stella Adler, Robert Lewis, Harold Clurmn e muitos outros, que nunca tinham visto nada igual àquela extraordinária companhia de atores da Rússia.
            Bastante influenciado pelas teorias pavlovianas dos reflexos condicionados e por certas descobertas da atraente e nova fronteira do inconsciente, Stanislavsky havia desenvolvido métodos para o treinamento do ator que resultaram em um sedutor realismo psicológico e um notável conjunto de representações capaz de retratar o comportamento humano ultrarrealisticamente. Quando Stanislavsky deixou os Estados Unidos, os professores de interpretação ligados à pesquisa inicial de Stanislavsky, inclusive Richard Boleslavsky e Maria Ouspenskaya, que permaneceram em Nova York, foram assediados para ensinar esse método a entusiasmados e ávidos jovens norte-americanos. Lee Strasberg, que havia sido fortemente influenciado pelas idéias recentes e modernas de Sigmund Freud, uniu seu conhecimento de Stanislavsky com a paixão por Freud e chegou a uma abordagem poderosa da emoção e do inconsciente, usando o que hoje conhecemos como memória afetiva, evocação emocional e memória sensorial. Essa abordagem da atuação se transformou na Bíblica do Group Theater, do Actors Studio, da Neighborhood Playhouse  e de muitas ramificações.
          Os norte-americanos abraçaram os experimentos russos apaixonada e equivocadamente, enfatizando de forma exagerada os estados emocionais personalizados. O sistema Stanislavsky, então diluído  um “método”, mostrou-se eficaz no cinema e na televisão, mas no teatro produziu um desastroso sufocamento da entrega emocional. Acredito que a grande tragédia do palco norte-americano é o ator que, devido a um entendimento grosseiro de Stanislavsky, supões que “se eu sinto, o público sentirá”.
        As técnicas originadas da visita do Teatro de Arte de Moscou aos Estados Unidos constituíam, de fato, um pequeno aspecto da vida inteira que Stanislavsky dedicou ao teatro. Ele logo abandonou seus primeiros experimentos com memória afetiva e partiu para um trabalho pioneiro em ópera e orientou experimentos em ação física e em algo que chamou de unidade psicofísica da experiência. No fim da vida, rejeitou suas técnicas psicológicas iniciais, chamando-as de “equivocadas”. Mas era tarde demais. Os norte-americanos já haviam se apegado a um aspecto extremamente limitado de seu “sistema”, transformando-o em uma religião. A americanização ou miniaturização do sistema Stanislavsky tornou-se o ar que respiramos e, assim como o ar que respiramos, raramente temos consciência da sua onipresença.

BOGART, Anne. A preparação do diretor: sete ensaios sobre arte e teatro. WMF Martins Fontes, São Paulo, 2011, pp. 43-45.

segunda-feira, 18 de julho de 2011

Les éphémères

Em uma manhã de janeiro – em uma quente manhã de janeiro – ele despertou e tateou ao seu lado o corpo adormecido. Ela, cada vez mais linda, virou para o lado e nem percebeu que ele despertava. Ele, com toda a delicadeza que há muito não usava para sair da cama, saiu, para não acordá-la – como há muito não fazia. Sempre tentava não despertá-la. Ela, sempre com o sono muito leve, nunca deixava que ele não a despertasse. Pé por pé ele saía pela porta e antes que ela fechasse completamente, escutava uma vozinha bem pequenina lá no fundo do quarto escuro: Cadê meu beijo...? E ria, e voltava correndo para a cama, se jogava sobre ela e era uma vontade enorme de apertá-la até explodir. E assim os inícios de manhãs passavam, felizes. Naquele dia foi diferente: ele conseguiu sair sem despertá-la. Quando encostou a porta, quase não acreditou que tinha conseguido. Ficou feliz porque não gostava de despertá-la antes da hora quando ela tinha a manhã livre. Foi para a cozinha, acendeu o fogo e colocou a água para o mate. Estava organizando a louça, quando sentiu uma presença atrás de si: aí estava ela, pequenina, camisola azul celeste com detalhes de uma outra corzinha, mão direita coçando o olho tal uma criança que levanta antes da hora, e um sorriso que há muito ele não via. Ele pensa no quão é bom estar de volta e no quão é bom tê-la sempre por perto. Ela sorri, apenas. Ele sorri. Ela corre na sua direção e o abraça. Assim ficam, alguns minutos. Ele a sente tremer nos seus braços, beija seu pescoço, rosto e lágrimas. Suas lágrimas começam a se misturar, eles se abraçam como se há muito não o fizessem – e há muito não o faziam. Tudo bem?, ele pergunta. Tudo, ela responde, completando: Todos os dias eu me levanto, passo por aqui, e sempre estou sozinha... hoje, eu te vi... e foi como um sonho... uma lembrança boa... e aí me dei conta de que não era sonho, era real... você está aqui... é de verdade... E ao escutar isso ele chora junto com ela. E se dá conta do amor que ela sente. E ela sabe nesse momento do tamanho do amor que ele sente. E ele promete que quando tudo isso acabar eles voltarão a ficar juntinhos, como haviam prometido, para sempre. E ela aceita. E sob o cheiro do mate que começa a ficar pronto em uma manhã quente de janeiro, os dois selam mais um dos tantos pactos que selaram. E o dia amanhece em paz. E eles, até hoje, estão aí, em uma cozinha, sob o sol matinal, agarradinhos como dois carrapatos que tremem as patas, felizes para sempre.

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quinta-feira, 14 de julho de 2011

De um sonho, ou de uma viagem...

Uma vidente que vê o futuro numa bola de cristal. Um homem que procura alguém em Bérgamo. Mas na hora de falar, ele se engana e diz “Fortaleza”. A vidente olha para a bola de cristal e diz “tem certeza que não é em Bérgamo?” Com a esperança acesa, ele responde “sim, sim, é Bérgamo, eu é que tinha me enganado. O que você está vendo?” Resposta: “Nada”.

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