quarta-feira, 21 de novembro de 2012

Gincana abaixo de mau tempo



Chuva torrencial, exponencial, abundante, daquelas que não escoam por lado nenhum e acabará por fim a submergir um canto todo de uma cidade. Na avenida encharcada, difícil é descer da calçada, tamanho o rio que corre entre pista e meio-fio. Qualquer um que ousasse pôr o pé para fora do abrigo que era aquela parada de ônibus, em meio segundo se transformaria em uma esponja. Ao lado da parada, uma tendinha dessas que vendem coisinhas e comidinhas, transformada em ilha, claro, como a parada ao seu lado, abriga o que nela não coube. Então são dois grupos, numa grande gincana molhada: do lado de lá o grupo da parada observa o ônibus chegando enquanto no seu campo de visão o grupo da tendinha recua em ola para evitar a poça que voa em sua direção. Do outro lado o grupo da tendinha alterna seu olhar entre a esquerda, na esperança de um ônibus que os tire daquela ilha, e a direita, invejando alguém do outro grupo que porventura tenha sentido a sorte de ser resgatado por uma linha. Mas linhas milagrosas são escassas, e raras. E não menos raro é o motorista (?) de ônibus que cruza em alta velocidade na pista central, deixando para trás a esperança do resgate imediato. Ninguém protesta, calejados pela cotidianidade com que isso ocorre – além do mais qualquer movimento brusco significa mais água no corpo, e todos ali sabem que um péssimo motorista não valeria aquele sacrifício. A chuva resolve intensificar os trabalhos. Os dois grupos já têm dificuldade em se enxergar, tamanha a cortina molhada que os separa. Olhando para o chão, sua área seca está cada vez menor, os sapatos (e as meias!) sentem os respingos do dilúvio que cai a poucos centímetros. Apertam-se. Mas a chuva não aproxima os seres humanos. Eles apenas se apertam para escapar da umidade externa, com o olhar no horizonte, quietos, resignados. Eventualmente alguém se liberta, atravessa correndo a avenida, levando a parte que lhe cabe de água para casa. O movimento cessa. Não mais ônibus, não mais carros. O tempo passa. Apenas sons molhados e pensamentos esparsos enchem a cabeça de quem espera. Dois, três, cinco minutos de água e asfalto. Água, asfalto e corredeiras no meio fio. Do outro lado surge ela, menina, pequena, vestida de escola. Nota-se que costuma passar sempre por ali, vinda de alguma aula. Sob os olhares atentos dos dois grupos da gincana, surge com dificuldade, lutando contra a natureza que a quer empurrar de volta. Salta uma corredeira, pisa o asfalto, protege o rosto e o corpo com os braços, inutilmente. Cruza pelo canteiro central. Tem a boca roxa de frio, o casaco empapado, a mochila pesada, o pé vestido em água. Chega à segunda corredeira, a que dará acesso ao grupo da tendinha. Pisa no limite entre asfalto e rio, saltando ao meio-fio. Junta-se ao grupo. Busca um lugar para si. O grupo lhe abre espaço, não por solidariedade, mas por não querer receber a água que aquela inesperada visitante trouxe. A menina treme dos pés à cabeça, arrepiada, frio. A moça da tendinha lhe sorri, nota-se que a freqüência é habitual, elas se conhecem de vista. Não existem palavras nem aproximações mais profundas, mas estamos diante de um daqueles momentos onde a cordialidade superficial se manifesta, como acontece sempre no elevador, na padaria, no balcão: tudo bem? Tudo. Tudo bem? Tudo. Um bom dia. Pra você também. Até mais. Nos vemos. É nessa fração de segundo, entre a chegada da menina encharcada e o sorriso da moça que vende comidinhas e coisinhas, que acontece a aproximação verbal da segunda em direção à primeira: “Oi, tudo bem?”. A outra, composta em camadas de corpo, água, roupa e água, boca roxa e pele arrepiada, sorri batendo queixo: “tudo”.



quinta-feira, 15 de novembro de 2012

A História do Elefante


Uma vez, há muito, muito tempo atrás, no continente africano, viviam os elefantes. E eles eram livres. Podiam andar por todos os lados e em toda parte. Não havia fronteiras, não havia barreiras, não havia cercas de arame farpado. Os elefantes podiam andar de norte a sul e de leste a oeste.

E eles eram muito felizes. Quando estavam sós, caminhavam para encontrar amigos. Quando estavam com fome, caminhavam para encontrar folhas para comer. E quando estavam com medo, caminhavam até encontrar o conforto de suas mães.

Um dia, um dos elefantes mais jovem viu uma árvore cheia de folhas mais suculentas que as demais. Com fome, ele virou as costas para os outros para comer da deliciosa árvore. Em um instante, ele foi separado de sua família.


Every year, every day,... I'm walking. Foto de Eric Nathan.


Quando o pequeno elefante tinha acabado de comer, ele virou-se para juntar-se à sua família. Mas encontrou uma barreira enorme entre eles. Longa, alta e forte... Sua família de um lado e o jovem elefante de outro.

Ele encostou-se na barreira, empurrou-a fortemente, tentou cavar por debaixo dela. Mas não teve jeito.

A família de elefantes esperou e esperou... Eles esperaram para se reunir novamente. Esperando que tudo fosse como antes. Eles comeram tudo o que tinham à sua volta e começaram a ficar com fome. E sabiam que em breve teriam que partir.

Fragilmente, eles juntaram seus corpos formando uma cerca. E, então, muito devagar e com muita relutância, começaram a mover-se e se separaram.

Durante a noite se podia ouvir o pequeno elefante trombeteando sua solidão no escuro.


Trecho do espetáculo Every year, every day... I’m walking,
de Magnet Theatre (África do Sul)

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quarta-feira, 3 de outubro de 2012

De como o Facebook minou qualquer escrita aprofundada.


"Maico,

Não tome esta carta como uma afronta, ou uma cobrança vazia sem razão. Não queria expor tua figura assim em público, mas não consigo pensar em outra maneira de me dirigir a você e de ter um retorno válido se não for por este meio. O fato é que tenho me sentido muito sozinho e gostaria de falar sobre isso. Andei me revisando nos últimos dias, pensando em tudo o que passamos juntos e relendo a quantidade infinita de coisas que você resolveu expressar através de mim. Foram épocas boas, ricas de conteúdo, onde eu te ajudava a entender algumas coisas do mundo e você criava meios de isso chegar até outras pessoas de uma maneira indireta e impactante. Lembra de quando você me revisitou e buscou vários textos que tinha escrito, chegando a montar um espetáculo com eles? Pois é... talvez isso não teria acontecido se você não tivesse trabalhado uma produção textual tão rica naquela época.

Vou direto ao ponto, para não parecer dar voltas sobre o mesmo assunto. Eu sei que o Facebook é popular e que todo mundo o “curte e compartilha”, mas é ele quem está minando nossa relação. Não, não é um ciúme besta de um site contra outro, mas desde que você começou a dar mais atenção a ele do que a mim, suas idéias ficaram mais vazias, mais imediatas e com menos – muitos menos! – poesia.

Vocês, os seres humanos, são sempre tão imediatistas... carregam tanto essa vontade de serem lidos imediatamente, de serem populares, de terem um número razoável de likes assim que postam qualquer coisa... todos buscando aprovação e aceitação o tempo inteiro em tempo real... já parou para pensar nisso, Maico...? Já se deu conta de que nessa tua busca por aceitação o teu conteúdo ficou cada vez mais vazio? Não que eu ache que sou a única maneira de provocar um engrandecimento do teu ser, não é isso. Mas sou um veículo para isso, entre tantos outros.

Quer exemplo concretos? Antigamente, quando você gostava de um vídeo, o recomendava aqui, como fez com o Darth ou com o Beirut. Isso valorizava o vídeo, você o tratava de uma maneira especial, colocava a letra das músicas que te diziam alguma coisa (lembra da Piaf? Ou do Johansen?). Lá no Facebook qualquer vídeo que você postou nos últimos tempos se perdeu... eles não ficaram marcados na tua história, perderam a importância que tiveram no momento.

Lembra das tuas reflexões sérias...? Não eram apenas gritos, eram poesia. Eu sei que você andou relendo Les Ephemères e se emocionou de novo. Eu sei que você revisitou suas reflexões de onze anos. Já imaginou o que tudo isso teria virado se fossem postagens de facebook? Provavelmente uma frasezinha para chamar atenção, alguns likes e comentários espirituosos e deu, teríamos um conteúdo para sempre perdido no limbo da internet. Aqui as coisas perduram... tanto as bizarrices (o que foi aquela notícia italiana?!) como os momentos sérios de conflito (Under Pressure... grande momento do teu espetáculo, não...?).

O que peço aqui é um pouco de atenção com quem te faz evoluir como pessoa: paradoxalmente, um meio eletrônico e tão artesanal como um simples blog. Este ano você publicou aqui apenas duas vezes. Você não construiu apenas duas idéias interessantes este ano. Além disso, você está devendo uma resposta ao comentário na postagem da bicicleta desde janeiro...! Isso não se faz...

Maico, lembra do teu compromisso assumido no dia em que eu nasci, há quatro anos. Você falaria aqui de ‘teatro, trânsito, vida, arte, viagens, amigos, cidades, remédios, materiais diversos, teatro, livros, cinema, comerciais, teatro, saudades, chatices, sofás, perguntas sem respostas, respostas sem perguntas, pesquisas, teatro, amigos, trânsito, impressoras, livros, dores, fatos, coisas, provas, música, sabonetes, luzes, carros, trilhas, portas, chãos, malas, chocolates, escadas rolantes, professores, teatro, tapetes, horas, joelhos, almofadas, enfeites, gente, leis, vinhos, hábitos, curiosidades, oportunidades, ditos, não ditos, cadeira de faculdade, cadeiras de madeira, sonhos, diálogos, desafios, balas, rios, anjos, astronomia, árvores, estupidezes, gentilezas, alegrias, pizzas, eletro-eletrônicos, férias, política e tomates.’ Continue falando disso. Você não será muito lido, nem muito aprovado, não terá muitos likes nem muitos comentários. Mas terá um pensamento construído, não apenas um pensamento jogado na rede.


Obrigado por me ouvir.


Um abraço grande,


Maico sem Ene."




sexta-feira, 29 de junho de 2012

Chega sexta!!!


Olha que coisa mais bonita, mais gostosa, mais vontade de apertar, mais flafstis e mais vontade de desejar que o tempo passe.
Enquanto isso, no mundo dos mortais, a sexta-feira é exaltada e a segunda-feira é menosprezada. As fotinhos de "chega sexta, chega sexta!" correm os murais do Brasil, os dias passam voando e o final de semana é cada vez mais exaltado. De outro lado as imagenzinhas, as coisinhas, os gatinhos, porquinhos, passarinhos, ornitorrincozinhos e ondinhas do marzinho nos dizem para aproveitar cada segundo porque a vida é feita de momentos. E um dia depois, as mesmas pessoas buscam para os seus murais as mensagenzinhas de "chega sexta, chega sexta!". E a vida passa diante delas, e os dias passam incógnitos, como atalhos para o grande e sonhado dia, que chega e vai embora, sem trazer nada demais. A sexta-feira se tornou uma das tantas pedras de Sísifo que os mortais insistem em carregar. Ela é rolada morro acima e, depois do trabalho realizado, volta a cair. E lá vão os mortais buscá-la de novo na segunda-feira. Com tudo isso, ninguém vê que o verdadeiro espírito da sexta-feira está dentro de cada um e que o nome de um dia é apenas um estopim para algo de bom e interessante acontecer. Quantas coisas maravilhosas já aconteceram na terça, na quinta ou até mesmo na segunda, veja só...! Outras imagens (de anjinhos, bebezinhos, cachorrinhos e outros inhos) nos dizem que o dia de ser feliz é hoje, pois o passado passou e o futuro talvez não chegue. Um pouco fatalista, talvez, mas não deixa de ter um fundinho de verdade. Mas se torna difícil crer que os mortais acreditem realmente nesta idéia quando proliferam tantos desejos de que o tempo passe tão rápido quanto possível. E passar para quê? Ele passará por si próprio. Sem dúvida passará. O que faz uma pessoa desejar que o tempo passe? O que ela fará com aquela pequena pérola rara chamada instante quando ele estiver em suas mãos? Idealizar um instante é como planejar um orgasmo: ele até vem, mas dura tão pouco em relação à expectativa criada, que a frustração acaba sendo maior do que a realização. Então, sei lá. Bóra relaxar um pouco e aceitar de vez em quando um orgasmo de meio de semana, afinal todo dia é dia de feira.

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terça-feira, 17 de janeiro de 2012

Michel Teló e a bicicleta.

“Mãe, posso ir na casa do fulano? Não. Mas todo mundo vai. Mas você não é todo mundo.”

Michel Teló é o nome da vez. É um cara simpático, divertido, bonachão, que ganhou o mundo e o coração da galera. A música do cara é popular no Brasil e no exterior. E isso “legitimiza” a qualidade dela aqui, pois tudo o que faz sucesso lá fora deve ser bom e “representa nossa cultura”. Finalmente o Brasil começou a exportar música que faz os outros dançarem lá fora. Não continuaremos apenas a importar a Rhianna, a Shakira, a Lady Gaga, e os afins, mas temos condições de devolver ao mundo algo tão popular quanto. Isso somos nós, essa é a nossa cara, esta é a alegria e o despojamento do povo brasileiro.

Você concorda com o parágrafo anterior?
(  ) Sim  (  ) Não, com exceção das três primeiras frases.

Os que criticam o trabalho do cantor se confundem quanto ao alvo e acabam criticando o próprio cantor. No entanto, ponderemos: Michel Teló é apenas o quarto cantor a gravar o hit de 2008, juntando-se às bandas Os meninos de seu Zeh, Cangaia de Jegue e Garota Safada. A questão é um pouquinho mais profunda do que uma simples análise musical ou um ataque ao artista. Uma das autoras da letra, Sharon Acioly – responsável pela singular Dança do Quadrado –, respondeu esses dias a uma crítica de Bruno Medina, e disse, entre outras coisas, que foi criada ouvindo grandes artistas da MPB e que “sabe bem a diferença entre um gênero e outro e aprecia os dois, pois adora dançar.” O que me preocupa é justamente quem não tem paciência para saber que existem outros tipos de som e que toma certos estilos musicais como único estilo possível existente. Ou seja, o que me assusta no movimento Teló não é a música ou o cantor em si, mas o que isso reflete sobre nós, sociedade brasileira: uma sociedade onde a maioria das pessoas não busca sair da sua área de conforto e tem medo, preguiça, ou simplesmente não vai em busca do desconhecido porque nunca pensou nisso. A metáfora da música revela muito de nosso pensamento arraigado a valores com os quais convivemos desde sempre. 

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Pequena pausa para uma historinha:
Adoro uma história contada por uma amiga cantora, quando depois de uma apresentação do seu coral foram para o restaurante da cidadezinha gaúcha e, com o povo reunido, o cantor pegou a gaita e disse: “Os senhores que me desculpem, tudo estava muito bonito lá no coral, mas isso aqui é que é música!” E puxou um vaneirão sob os aplausos do povo. E isso é perfeitamente compreensível em se tratando de uma cultura como a gaúcha, uma das mais consistentes e, talvez por isso, conservadoras no nosso país.

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Em nossa cultura fomos aprendendo a valorizar sempre – e apenas – uma pessoa de cada vez. Nossa cultura valoriza o que é de massa, diminui o que “não junta muita gente”, e estandardiza alguns poucos profissionais como se fossem heróis. Particularmente, acredito que é necessário desconfiar de o que vem com o selo de qualidade da maioria, sempre. Eu sei que não é uma afirmação muito democrática, mas o fato é que massas são facilmente manipuláveis (existem muitos textos informais, como este, ou formais, como este, que tratam do assunto, no caso de não acreditarem em mim). Basta dar um rápido giro em alguns fóruns de discussões internéticas para constatarmos que de acordo com a maioria, hoje os artistas estariam sem seguro desemprego, leis de financiamento cultural não existiriam, o ex-presidente já estaria em estágio terminal e o mundo já teria acabado por alguma briga entre torcidas. Quando a Secretaria de Cultura do Estado do RS estava ameaçada de fechar no início do governo Yeda Crusius, fizemos uma mobilização em prol da classe artística e, em fóruns da página da Universidade Federal do Rio Grande do Sul em uma rede social, não foram poucos os que nos criticaram dizendo que a cultura não era nada importante para a sociedade e que qualquer dinheiro deveria ser utilizado para melhorar bens públicos como saúde, educação, e o discurso de sempre. Universitários dizendo isso, em 2007, são profissionais que em 2012 engrossam a massa.

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Pequeno dado para antes de continuar lendo o texto excessivamente longo:

Alguém sabe quantos carros foram vendidos no Brasil em 2011?
Resposta: 3.633.006
– ou, simplesmente, dez mil novos carros por dia.

Isso mesmo que você leu. Com todo o atrolho de carros nas ruas e uma bomba relógio prestes a explodir (ou parar) o centro das grandes cidades, continua-se comprando carros. Afinal, “brasileiro é apaixonado por carro”, nós acreditamos nisso e seguimos comprando, ué!

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Pergunta lugar-comum: Por que o velocímetro de um carro popular chega a 220Km/h se a velocidade máxima permitida é 100 Km/h?

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Na Porto Alegre de 2012 está acontecendo um fenômeno digno de ser estudado por muitos sociólogos. É sério: eles deveriam passar um tempo andando de bicicleta por aqui para entender empiricamente o que acontece no trânsito desta cidade. Em uma época em que se discute mobilidade, congestionamentos, poluição e desenvolvimento sustentável, os debates afloraram sobre um dos meios de transporte mais limpos e saudáveis que temos notícia. Mas o fato é que em Porto Alegre está cada vez mais difícil andar de bicicleta. Dentro de pouco mais de um mês completaremos um ano do atropelamento em massa acontecido na cidade, e pouquíssimo foi feito em relação a isso. Inclusive o atropelador corre o risco de ser absolvido. As bicicletas são vistas com hostilidade pela maior parte dos motoristas, o poder público exige conversar com uma “liderança” do movimento “Bicicletada”, e não entendem que este movimento, por princípio, não tem liderança. Querem impor limites a um movimento do bem, que só exige mais amor e menos motor. Em qualquer lugar um pouco mais civilizado, um atropelamento como esse desencadearia uma série de ciclovias e projetos de educação e consciência aos motoristas – sim, porque ninguém está percebendo, mas as pessoas estão ficando loucas de verdade: o transito está estressando e enlouquecendo quem passa muito tempo ali. Mas em Porto Alegre essas medidas não tiveram espaço; em Porto Alegre tudo isso desencadeou ódio. O ódio dos motoristas em relação aos ciclistas. Aqueles que, como eu, andam de bicicleta pela cidade, sabem do que estou falando e sentem isso cada vez que alguém lança aquele olhar de profundo ódio por detrás do volante. A opinião pública de Porto Alegre está se voltando contra os ciclistas. Os jornais fazem campanhas indiretas em notas que parecem inofensivas, mas que estimulam o ódio. A cultura do automóvel está se voltando contra o “politicamente correto” (leia-se “chato”). Chato? Exato. Esse é o estigma que ganha quem não come carne, quem anda de bicicleta, quem separa o lixo, quem prefere filmes com áudio original legendados em sua língua e mais recentemente quem não dança o Ai se eu te pego. Essas pessoas são chatas para a “sociedade” quando começam a tentar mudar essa sociedade. E os que sabem que mudanças não são benvindas (e a própria palavra “benvinda”, mudada, me sai agora com dificuldade) e não tentam mudar nada, mas simplesmente viver sua vida, têm as suas vontades invadidas pelos hábitos da maioria e pela idéia de que todos devem pensar iguais. Ser “politicamente correto” no Brasil virou sinônimo de chatice, assim como agir com honestidade virou sinônimo de burrice.

Uma notinha inofensiva no jornal de maior circulação do RS.
É exatamente onde começamos a ter problemas infindáveis: no ponto onde perde-se o direito de não gostar do que a maioria gosta. Porque, meu amigo, se você mora no Brasil e não sabe quem é o personagem da novela, o bordão do momento, o nome do estuprador em horário nobre ou a escalação do seu time (Deus o livre se não tiver um time!!), você terá problemas seríssimos.

Maaaaaaas...

quem está se opondo a este movimento todo está errando na dose de munição: não adianta volver-se contra a multidão e gritar contra ela. Porque ela simplesmente te crivará suas opiniões, te desacreditará e passará por sobre o teu cadáver! A opinião pública (e os motoristas de ônibus, os taxistas e os atropeladores de multidões) passarão por cima da tua bike. Eis a verdade para quem enriquece seus discursos com exemplos eruditos demais, e às vezes equivocados e lugar-comum. Colar a letra de Ai se eu te pego no seu blog e compará-la com uma poesia barroca não vai adiantar nada na conversão. Também não adianta chamar o Chico e o Caetano para ajudar na artilharia. Não vale a pena ganhar a antipatia de quem você, que fala de poesia, gostaria de abrir os olhos para a arte bem-feita do país. É por isso que essas pessoas, tão bem intencionadas, são chamadas carinhosamente de pseudo-intelectuais.

Michel Teló existe, é simpático, e vai continuar existindo para sempre. Ele já se chamou Luan Santana, Latino, Nx Zero, Gaiola da Popozudas, Bonde do Tigrão, É o Tchan, e até – vai me doer dizer isso – Mamonas Assassinas. Ele já se chamou “Olimpíada”, “final do capítulo da novela das oito” e “final do Big Brother”. Ele já se chamou “Copa do Mundo”, e vai se chamar assim de novo dentro de dois anos. Uma vez por ano ele se chama “Campeonato Brasileiro”, mas essa dura mais de oito meses. O que a gente precisa aprender é deixar a diversão para o momento da diversão, e falar (bem) sério quando for necessário. E sério é sério (não suporto passeatas “com bom humor”). Difícil é convencer alguém a deixar um pouco de lado os passinhos da música e olhar além, no mundo. Difícil é desafiá-lo a desconfiar quando a televisão passa repetidamente e exaustivamente aquela mesma imagem daquele ciclista que passou no meio dos carros e que o trata como se ele estivesse colocando uma bomba ali ou algo parecido. Difícil é dizer sem ofender que esta pessoa pode estar sendo manipulada naquele exato momento e nem sequer desconfiar disso.

Correntes especulativas dizem que o estupro no Big Brother é apenas uma jogada de marketing da própria emissora. Agora, a questão bem colocada por Juremir Machado é que chegamos ao ápice da chinelagem quando um estupro em horário nobre serve como estratégia de marketing. O que está acontecendo nesse Brasil de 2012 não caberia na letra da música da Legião dos anos noventa. Literalmente: está tudo errado, está tudo invertido. Se inverteu o que é bom, ou ruim, permitido ou negado, creditado ou descreditado. Nem nas leis não se pode mais confiar. Não esqueçamos que a pior classe de foras-da-lei que atua no país age dentro delas, pois eles próprios as criam. Esses "foras-da-lei-dentro-dela" aproveitam momentos de distração do povo, para cometer atrocidades inimagináveis. Ou você esqueceu que Jader Barbalho tomou posse no Senado no dia 28 de dezembro, (em pleno recesso parlamentar!!!) às escondidas, tendo que convocar de última hora 10 parlamentares para presenciar a cerimônia? Espero que também não se esqueça que os deputados federais aprovaram em 22 de dezembro de 2010 o seu aumento, e ao voltar em fevereiro de 2011 tinham 60% a mais de salário e que, um ano antes, e faltando uma semana para o carnaval, foi quando o STF começou a colocar pressão para ter seus salários aumentados, fato que aconteceu sete meses depois, em 23 de setembro? Algo em comum entre esses fatos? Todos aconteceram durante o verão no hemisfério sul, enquanto o povo dançava alucinadamente o hit do verão. Esta semana – janeiro de 2012 – o SATED, Sindicato que representa a categoria artística no RS, está lutando para reunir o máximo possível de pessoas para impedir a PL410/ 2011, emenda que acaba com muitos direitos conquistados ao longo dos anos para a classe artística, divide verbas de cultura e de esporte, entre outras áreas, e é vendida como se fosse uma maravlha - como se vê no link aí atrás. Ela foi votada super rápido, no dia 21 de dezembro, e que vai ser sancionada pelo atual governador dia 17, hoje, se nada for feito. É assim. É no verão, em menos de um mês. Rápido, não? Quando foi a última vez que você viu uma decisão ser tomada assim, tão rápido? É quando as pessoas saem da cidade e os sindicatos não conseguem reunir um número expressivo. É quando todos vão para a praia e se desligam no noticiário – isso quando o noticiário noticia esse fato.

Qual é a nossa prioridade em discussões internéticas, afinal?
Enquanto isso, na internet, os revolucionários ficam sentados imaginando como seria um mundo melhor, reclamando dos cachorrinhos espancados, dos hospitais sem condição, do “Mulheres Ricas”, e dos etecéteras, marcando a si mesmo em fotinhos de facebook com os dizeres “Esta pessoa bla bla bla...”. De minha parte tento ser consciente de que eu não posso obrigar as pessoas a ler, ou a ir ao cinema ou ao teatro. Elas provavelmente adorariam quando fossem, mas eu não tenho o direito de empurrá-las para sua primeira experiência. Como diz um amigo de Brasília sobre nossa insistência com bicicletas e com transporte público de qualidade, nosso nível de exigência é alto porque já tivemos a possibilidade de confirmar que o sistema pode funcionar, e já o vimos em funcionamento em outras ocasiões. Difícil é convencer quem ainda não viu e ainda está preso à sua primeira visão sobre o assunto.

Enquanto isso, fico sentado na frente do computador em dia de sancionamento de lei polêmica, pensando sobre o mundo e fazendo o que me dá a sensação de que estou agindo, sabendo que não adianta nada e que pouquíssimos chegaram a ler até aqui este texto longuíssimo. Acho que vou fazer uma imagem de facebook dizendo algo do tipo: “Esta pessoa tinha ímpetos revolucionários”. Ou, em clima de Shortbus (filme fantástico, vale a pena ver), acabar este texto com uma bela citação: “Antigamente eu queria mudar o mundo, agora eu só quero deixar este lugar com um mínimo de dignidade”.

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Em tempo: Televisão, Retrospectiva 2011, Record ou Globo. Quem assistiu? Alguém viu a retrospectiva sobre o atropelamento em massa, ocorrido em Porto Alegre...? Pois é, eu também não.

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A propósito:

Lucas Napoli faz uma análise sobre movimentos de massa que mudam sistemas, seja na política ou no futebol. (Leia aqui)

João Baldi Jr. analisa tudo o que a gente não deveria discutir. (Leia aqui)

A época do bom senso já passou. (Literatortura é um ótimo nome, não?). (Leia aqui)

Câmara reembolsa 135 milhões aos deputados. (Leia aqui)


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