segunda-feira, 19 de dezembro de 2011

Breves reflexões de um menino de onze anos

Hoje, 17 anos depois, o dia 19 de dezembro cai novamente em uma segunda-feira. Dessa vez não chove. O dia está lindo, o sol radiante. Naquele dia choveu. Desabou o mundo sobre a cidadezinha trazendo consigo a notícia da tragédia. O menino de onze anos descobria que, na vida, muitas vezes o crescimento traz consigo a dor. Descobria que não seria sempre que teria por perto algumas pessoas com as quais estava acostumado. Descobria o mundo através de outro ponto de vista. Dezessete anos depois o sol brilha, o menino de onze anos olha para trás e tenta enxergar o que significava esse outro ponto de vista. A chuva já passou por aqui e eu mesmo que cuidei de secar. Se já secou mesmo, não se sabe. Talvez não, talvez nunca. A dor traz consigo o crescimento, impossível prever como seria se.

Abre o sinal, o ônibus arranca, a vida avança.
 
it's hard to hold a candle in the cold december rain.

Stanislavskyanamente falando...

Seguidamente algumas pessoas me perguntam o que acho de Stanislavsky e suas técnicas de “teatro psicológico” e que fazem as pessoas “sofrerem enquanto atuam”. A essas perguntas somam-se uma expectativa de que talvez eu vá falar mal do russo, porque prefiro trabalhar com um “teatro físico” (notem que tudo o que define grosseiramente alguma coisa está entre aspas, hein...?).

Pois bem, minha resposta sempre vai pelo mesmo caminho: Imaginem uma transição de século XIX / XX, onde o tipo de atuação em vigor era declamatório, sem muitas construções de personagem, onde ninguém pensava muito nisso, e apenas contar os versos de um poema e saber dizê-lo de acordo com os parâmetros da época era o suficiente para termos uma definição de “bom ator”. Imaginem que nesse contexto alguém que comece a pensar em trabalho de ator, comece seu trabalho a partir do zero, sem ter muito onde apoiar-se. Seria muito normal que essa pessoa se apoiasse em outras áreas, como a das novas descobertas sobre o inconsciente, para embasar seus experimentos. Digamos que alguém devesse abrir essa porta, mesmo que alguns pontos do seu estudo fossem negados depois – por ele próprio.
                                                             
Aí está o valor das teorias de Stanislavsky: o pioneirismo e a posterior coragem de voltar atrás e dizer que algo estava errado. Mas convenhamos que, se não fosse esse erro inicial, não haveria novas e importantes conclusões a respeito do trabalho do ator.

Existe uma grande – e desnecessária – tendência a negar Stanislavsky, como se ele fosse um monstro da psicologia que invade o palco do ator postcontemporâneo. Em um rápido tour por alguma escola/ faculdade/ conservatório/ casting podemos facilmente captar trechos de conversas protagonizados por atores em formação que já repetem milhares de “frases feitas” contra o russo. Ou seja, existe toda uma geração de profissionais em formação que antes de conhecer o assunto, já começa a descredenciá-lo. E isso – sempre termino minha resposta com essa brilhante conclusão – não é legal.

- “Mas eu achava que você gostasse mais de teatro físico, de Mímica Corporal, Decroux e Grotowsky... como é que pode você defender Stanislavsky?”
- “Ué, mas não dizem que provavelmente se Stanislavsky estivesse vivo hoje, provavelmente estaria na linha de Grotowsky? E a expressão ‘ação física’, cunhada pelo russo, o que significa exatamente, eh?”

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Essa questão voltou à minha mente em razão de algumas conversas que tivemos nos ensaios de Kassandra. Na mesma semana, me deparei com um livro de Anne Bogart, chamado “A preparação do diretor”, onde em determinado momento ela explica a origem do equivoco a propósito de Stanislavsky no teatro norte-americano. Achei digno transcrever o trecho inteiro, sempre é interessante revisarmos na nossa história a origem de alguns mal-entendidos para compreendermo-nos hoje. E se for a Anne Bogart que nos explica... bom, aí – vou terminar minha parte do texto com essa brilhante conclusão – é legal.

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Com vocês, mistress Bogart:

O final dos anos 1920 trouxe a Depressão. O vaudeville, a jóia da coroa do entretenimento popular norte-americano, morreu quando os filmes falados substituíram a arte dos filmes mudos. A absorção do talento pelo cinema começou a diluir o vigor do palco. Um novo método para atores, baseado nas antigas teorias do russo Konstantin Stanislavsky, veio a dominar nossa abordagem da representação pelo resto desse século.
            Stanislavsky e sua companhia, o Teatro de Arte de Moscou, apresentaram peças de Tchekov e Gorky nos Estados Unidos, durante os anos de 1923 e 1924. Quando chegaram aos Estados Unidos, essas produções já tinham quase vinte anos e apenas refletiam as primeiríssimas experiências de Stanislavsky com a “memória emotiva” e a “concentração interna”. Mas para as sensibilidades norte-americanas, essa revolucionária abordagem da representação teve um tremendo impacto sobre os jovens do teatro, entre eles Lee Strasberg, Stella Adler, Robert Lewis, Harold Clurmn e muitos outros, que nunca tinham visto nada igual àquela extraordinária companhia de atores da Rússia.
            Bastante influenciado pelas teorias pavlovianas dos reflexos condicionados e por certas descobertas da atraente e nova fronteira do inconsciente, Stanislavsky havia desenvolvido métodos para o treinamento do ator que resultaram em um sedutor realismo psicológico e um notável conjunto de representações capaz de retratar o comportamento humano ultrarrealisticamente. Quando Stanislavsky deixou os Estados Unidos, os professores de interpretação ligados à pesquisa inicial de Stanislavsky, inclusive Richard Boleslavsky e Maria Ouspenskaya, que permaneceram em Nova York, foram assediados para ensinar esse método a entusiasmados e ávidos jovens norte-americanos. Lee Strasberg, que havia sido fortemente influenciado pelas idéias recentes e modernas de Sigmund Freud, uniu seu conhecimento de Stanislavsky com a paixão por Freud e chegou a uma abordagem poderosa da emoção e do inconsciente, usando o que hoje conhecemos como memória afetiva, evocação emocional e memória sensorial. Essa abordagem da atuação se transformou na Bíblica do Group Theater, do Actors Studio, da Neighborhood Playhouse  e de muitas ramificações.
          Os norte-americanos abraçaram os experimentos russos apaixonada e equivocadamente, enfatizando de forma exagerada os estados emocionais personalizados. O sistema Stanislavsky, então diluído  um “método”, mostrou-se eficaz no cinema e na televisão, mas no teatro produziu um desastroso sufocamento da entrega emocional. Acredito que a grande tragédia do palco norte-americano é o ator que, devido a um entendimento grosseiro de Stanislavsky, supões que “se eu sinto, o público sentirá”.
        As técnicas originadas da visita do Teatro de Arte de Moscou aos Estados Unidos constituíam, de fato, um pequeno aspecto da vida inteira que Stanislavsky dedicou ao teatro. Ele logo abandonou seus primeiros experimentos com memória afetiva e partiu para um trabalho pioneiro em ópera e orientou experimentos em ação física e em algo que chamou de unidade psicofísica da experiência. No fim da vida, rejeitou suas técnicas psicológicas iniciais, chamando-as de “equivocadas”. Mas era tarde demais. Os norte-americanos já haviam se apegado a um aspecto extremamente limitado de seu “sistema”, transformando-o em uma religião. A americanização ou miniaturização do sistema Stanislavsky tornou-se o ar que respiramos e, assim como o ar que respiramos, raramente temos consciência da sua onipresença.

BOGART, Anne. A preparação do diretor: sete ensaios sobre arte e teatro. WMF Martins Fontes, São Paulo, 2011, pp. 43-45.

segunda-feira, 18 de julho de 2011

Les éphémères

Em uma manhã de janeiro – em uma quente manhã de janeiro – ele despertou e tateou ao seu lado o corpo adormecido. Ela, cada vez mais linda, virou para o lado e nem percebeu que ele despertava. Ele, com toda a delicadeza que há muito não usava para sair da cama, saiu, para não acordá-la – como há muito não fazia. Sempre tentava não despertá-la. Ela, sempre com o sono muito leve, nunca deixava que ele não a despertasse. Pé por pé ele saía pela porta e antes que ela fechasse completamente, escutava uma vozinha bem pequenina lá no fundo do quarto escuro: Cadê meu beijo...? E ria, e voltava correndo para a cama, se jogava sobre ela e era uma vontade enorme de apertá-la até explodir. E assim os inícios de manhãs passavam, felizes. Naquele dia foi diferente: ele conseguiu sair sem despertá-la. Quando encostou a porta, quase não acreditou que tinha conseguido. Ficou feliz porque não gostava de despertá-la antes da hora quando ela tinha a manhã livre. Foi para a cozinha, acendeu o fogo e colocou a água para o mate. Estava organizando a louça, quando sentiu uma presença atrás de si: aí estava ela, pequenina, camisola azul celeste com detalhes de uma outra corzinha, mão direita coçando o olho tal uma criança que levanta antes da hora, e um sorriso que há muito ele não via. Ele pensa no quão é bom estar de volta e no quão é bom tê-la sempre por perto. Ela sorri, apenas. Ele sorri. Ela corre na sua direção e o abraça. Assim ficam, alguns minutos. Ele a sente tremer nos seus braços, beija seu pescoço, rosto e lágrimas. Suas lágrimas começam a se misturar, eles se abraçam como se há muito não o fizessem – e há muito não o faziam. Tudo bem?, ele pergunta. Tudo, ela responde, completando: Todos os dias eu me levanto, passo por aqui, e sempre estou sozinha... hoje, eu te vi... e foi como um sonho... uma lembrança boa... e aí me dei conta de que não era sonho, era real... você está aqui... é de verdade... E ao escutar isso ele chora junto com ela. E se dá conta do amor que ela sente. E ela sabe nesse momento do tamanho do amor que ele sente. E ele promete que quando tudo isso acabar eles voltarão a ficar juntinhos, como haviam prometido, para sempre. E ela aceita. E sob o cheiro do mate que começa a ficar pronto em uma manhã quente de janeiro, os dois selam mais um dos tantos pactos que selaram. E o dia amanhece em paz. E eles, até hoje, estão aí, em uma cozinha, sob o sol matinal, agarradinhos como dois carrapatos que tremem as patas, felizes para sempre.

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quinta-feira, 14 de julho de 2011

De um sonho, ou de uma viagem...

Uma vidente que vê o futuro numa bola de cristal. Um homem que procura alguém em Bérgamo. Mas na hora de falar, ele se engana e diz “Fortaleza”. A vidente olha para a bola de cristal e diz “tem certeza que não é em Bérgamo?” Com a esperança acesa, ele responde “sim, sim, é Bérgamo, eu é que tinha me enganado. O que você está vendo?” Resposta: “Nada”.

sábado, 9 de julho de 2011

Seus olhos e seus olhares

Meninas são tão mulheres, o garoto acordou e pensou, logo ao se espreguiçar. Ainda não tinha processado muito bem os últimos acontecimentos. Tampouco tinha conseguido dormir aquela noite como sempre dormia após uma noite como aquela. O coração continuava disparado, mesmo após o despertar. A pupila continuava dilatada e os pensamentos continuavam correndo, desatados, sem que ele pudesse fazer qualquer coisa para impedi-los. Revia cada detalhe com uma precisão incrível, brincava de mover os fatos de lugar e de alterá-los conforme gostaria que as coisas tivessem se passado. Revia o olhar. E cada vez que o revia, sentia-se partido ao meio, de novo. E de novo. Me miras, me miras, y me sacas a bailar... e que baile foi aquele. Uma dança proibida, intensa, rápida e inesperada. Tinha passado os últimos tempos tentando negar aquele olhar, mas quando se tenta negar o que é tão evidente, sempre se sai perdendo: mais cedo ou mais tarde ele volta. E quando volta, está potencializado de uma maneira incrível, que chega a derrubar. Gira na cama, sobre o braço. Impossível controlar os pensamentos, já diria aquele cara que passara por uma situação limite. É que as situações limites jogam o homem no centro do perigo, lá onde não existe mais medo. Lá onde ele se dá conta de que o que foi feito, foi feito. Sem volta. Mas o medo, como a gente conhece, esse medo que espanta, existia antes. Agora, ele atinge um outro patamar, atravessa a fronteira, dá de cara com o que tinha tanto imaginado e... gosta. Gosta disso. É um ritual de vida. Sua adrenalina sobe e ele sente que a outra adrenalina também subiu. Sente seus truques e confusões se espalharem pelos seus pêlos, boca e cabelo, peitos e poses e apelos. E lhe agarram pelas pernas (apenas para completar o verso da música). É aí que o telefone grita que chegou uma mensagem e ele pula mais rápido do que o som do próprio telefone para dar-se conta que não era o que esperava. E solta um suspiro lento e preocupado, dando-se conta de que não deveria estar pensando tanto nisso. Mas o coração não acompanha a lentidão do suspiro, c’est tout à fait le contraire: ele é a própria tauba de tiro ao álvaro frechada pelos olhares de bala de carabina. Joga-se na cama encore une fois (“caramba, estou controlando muito mal meu cérebro”). Um carinho, um cafuné e um te ver e não te querer é improvável é impossível e um puta-merda-pára-de-pensar-nisso. Percebe que no fim, está no fim. Tudo sempre tem data para acabar... não poderá ficar nem mais um minuto com você, sinto muito mas não pode ser, o tempo é curto, a vida passa correndo ante nossos olhos e impossível é agarrá-la pela cola. Sempre ela, a vida. Rápida e intensa, como la vida. Porque logo nessa época? Sabe, que, no fundo, amores imperfeitos são as flores da estação.


...e se a vida é feita de momentos, porque não aproveitá-los...?

quarta-feira, 27 de abril de 2011

Elle m’a laissé son coeur

Tomate em promoção... olha só... também, tudo verde... assim é fácil fazer promoção... Que cheiro bom... perfume e banho... adoro quand... uau, que linda. Ta, não olha direto, não olha direto... finge que não viu, finge que não viu... la la la la la... Quanto está a manga? Que bonitinha, essa... bem pequenina... que engraçado... manga tem formato de coração. Um coração bem vermelhinho com pequenas ocorrências verdes. Quase dá pra imaginar a pequena manga se encolhendo e se expandindo... tum, tum... tum, tum... ela está me olhando... ah, ta... só o que me faltava... certo que é imaginação minha... bóra pegar o arroz antes que fique tarde para chegar em casa. Bom, não custa nada dar uma espiada, né? hehehe... olha ela com a mesma manga que eu tinha visto... será que ela consegue enxergar o coração?

Hum... foi impressão minha ou quando tirei os olhos de lá ela tinha subido os seus na minha direção...? Há! Canto de olho... canto de olho... hum... ela pegou a manga... ta bem, pelo menos aquela manguinha pequenina terá uma companhia bem cheirosa nos próximos dias, ou horas... Cá estamos, senhor arroz... a ver... adoro escolher pelo número... quem dá menos...? Quem dá menos...? Aqui: adoro quando o primeiro dígito é um um. Conferindo... um, dois, três, pam, pam, pam... oito... ta bem, posso passar no caixa rápido. Acho que vou levar um chocol... olha ali quem vai passando pela porta... ah, não! Agora ela olhou, tenho certeza! Rápido, moço... “não, não precisa de sacola, obrigado”. Uff… esqueci meu troco. “Obrigado, moço, tinha esquecido”. “Para você também, até mais”. Para que lado será que ela foi...? Esquerda... direita... praça ou parada de onib... lá. Lá na parada! Espero que o dela não seja este que está passando. Cheguei. Cadê? Ah, não… Por que você tinha que pegar logo o primeiro que passou…? Oi?? Que será que ela quer dizer com este sinal? “No banco?” Putz… o ônibus foi e eu nem vi qual era o destino marcado nele… por que será que ela apontou o banco da parada? Isso aqui embaixo parece uma... manga?! E esse papelzinho...? “A mi también me parece un corazón... lo compré, es mío. Y te lo dejo a ti.”


sábado, 23 de abril de 2011

Sobre cartas y vuelos...

Em pleno processo de descoberta de Antoine de Saint-Exupéry, o aviador-escritor que foi um dos pioneiros do Correio aéreo mundial, co-fundador do primeiro aeroporto internacional do sul do Brasil, fomos incentivados por nossa pequena grande diretora a escrever um pouco sobre cartas e correios. Segue aí, depois da cartinha par avion.

Talvez, em pleno ano de 2011, o ato de escrever uma carta seja algo nostálgico, especial como é próprio do ato de parar para pensar de verdade em alguém a ponto de tentar colocar algo que é seu em um papel que viajará grandes (ou pequenas) distâncias para chegar até esta pessoa. A escrita é algo artesanal, um ato de amor, quiçá, de alguém que se dedica a um papel que será tocado pelas mãos do destinatário. Existem histórias de pessoas que antigamente colocavam seu perfume no papel. Outras beijavam o papel e deixavam suas marcas de batom nele. O destinatário receberia aquelas palavras e poderia sentir o beijo que foi enviado. Ele tem em suas mãos um beijo. Não é uma imagem bonita? Sabe aquela sensação de ver a Xuxa sentada em um monte de cartas jogando-as para cima e pegando uma delas – apenas uma, para desespero das outras? Imagina a felicidade de uma criança que tinha feito aquela carta com muito carinho e que agora vê sua “ídola” tocá-la? Engraçado que eu nunca escrevi para a Xuxa, sempre me pareceu uma coisa meio boba, mas ficava imaginando a felicidade de ter sua carta tocada por ela, mesmo que não tenha sido sorteada. Só tocada pela sua ídola. Não é o máximo que algo seu, que passou pela sua mão, que tem seu cheiro, seja tocado por alguém que você admira? Não é à toa que guardamos ainda hoje, na época da informação rápida e direta, a nostalgia e o romantismo da idéia de uma carta de amor. Afinal, escrever uma carta é, sob certo ponto de vista, um ato de amor. Com minha primeira namorada, tínhamos uma prática de escrever-nos cartas, mas com um diferencial: nunca passávamos a limpo. A idéia era deixar fluir para o papel coisas que estivessem na nossa cabeça no instante em que estávamos escrevendo, sem nos preocuparmos com erros gráficos, com letras imperfeitas ou algo do gênero. Assim estaríamos conectados de verdade – quem recebesse a carta – com aquele momento em que o outro escreveu. Não é uma imagem bonita? E como nada é em vão e tudo deixa marcas – principalmente as “primeiras namoradas”, ainda hoje levo comigo o ato de escrever em fluxo, sem parar muito para pensar, organizar ou medir palavras simplesmente porque este é o fluxo do meu pensamento no momento da escrita. Claro, com exceção de artigos, dissertações e cartas oficiais e técnicas ao governo de algum Estado – estas sim muito bem pensadas. Mas blog, cartas e bilhetinhos escondidos do professor no meio da aula não. Me pergunto hoje se ela sabe dessa importância toda – tudo o que veio do fato de um dia ter existido uma namorada que não passava a limpo. Não é uma imagem bonita?


Baobás, em breve.

domingo, 13 de fevereiro de 2011

What melody will lead my lover from his bed?

Ao longo de todo o segundo semestre do ano passado, esse mesmo semestre onde eu estive afastado desse blog, e muitas vezes afastado de mim mesmo, e muitas vezes afastado das pessoas que gosto, e muitas vezes perdido, e muitas vezes sem conseguir me comunicar ou escrever a quem gosto, e muitas vezes com meu quarto bagunçado – o que reflete muitas vezes o meu estado de espírito –, algumas pessoas foram especialmente importantes no processo de resgate, recuperação e adaptação ao novo ambiente, outrora tão conhecido.


É assim mesmo, a vida essa. Às vezes a gente ajuda. Às vezes a gente é ajudado. Um dos meus principais anjos no ano que passou viu isso de perto.
A vi chegando e dizendo smile though your heart is aching e me disse que if I smile, maybe tomorrow eu descobriria that life is still worthwhile. Aí ela me mostrou como eu poderia ser livre e feliz depois de um momento difícil, e me lembrou como tocar violão e me re-ensinou a cantar e fez dupla comigo e se empenhou em falar em inglês para que nós dois tivéssemos mais vocabulário e me mostrou na prática, no dia-a-dia, o que significa ser amigo.


Pensávamos em preparar uma janta, um prato especial, esperando-a voltar de férias, quando ficamos sabendo que ela não viria, e que não poderíamos mais prever quando a veríamos. O que se seguiu foi absurdamente lindo em sua tragicidade: amigos. Só isso. Manifestações de amizade. Quando o mundo inteiro conspira em favor de alguém e envia muita energia positiva e o empurra em direção à recuperação. Emails, cartinhas e gatos lambedores de sovaco.


Hoje a recuperação avança super bem e logo a teremos borboleteando por perto novamente. Existe aquela máxima que diz que a gente não pode esperar para falar para as pessoas o quanto elas são importantes para nós. Bem, as pessoas que são importantes sabem de certa maneira que o são. Mas esse breve texto em um blog quase abandonado serve justamente como uma pequena declaração pública de amor e de amizade a alguém o qual desejo que esteja sempre próximo.


keep walking, borboleta.

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quarta-feira, 12 de janeiro de 2011

Uma viagem no ônibus

Ontem, no ônibus ainda, aconteceu algo inusitado: um bichinho subiu na minha mão. Era uma joaninha ou algo parecido. Meu primeiro impulso ao sentir seu toque foi dar um cascudo e jogá-lo longe, mas freei a ação segundos antes de fazê-lo e temi pelo destino do bichinho: estávamos em um veículo com ar condicionado completamente fechado, o que significava que eu não tinha condições de jogá-lo pela janela aliviando minha consciência por tê-lo devolvido à natureza, ainda que sabendo que ele estaria no asfalto sujeito a qualquer pneu desavisado. Ademais, se desse o cascudo, ele iria ao chão e não sairia daquele ambiente, podendo ser simplesmente pisado por alguém. Resolvi, então, mantê-lo caminhando entre meus dedos (o que não é fácil porque esse tipo de inseto nunca pára e é sua mão que precisa movimentar-se para que ele continue, enfim, caminhando em círculos sem saber) até o ponto de descer e deixá-lo em uma árvore. Isso passou a ser meu objetivo naquele instante, e a mulher que se sentou ao meu lado algumas paradas depois deve ter estranhado muito minha relação com meu novo amigo. Era uma ação meio autista: um cara sentado mexendo a mão enquanto um inseto caminha por ela. Mas isso não importava naquele momento, o que importava era o objetivo maior: deixá-lo a salvo em uma árvore quando descesse do ônibus. E foi o que fiz, por mais difícil que fosse levantar com o ônibus em movimento e segurar-se no pega-mão sem esmagar o bichinho que estava perto da minha palma – tudo isso ajeitando minha mochila e pedindo licença à moça aquela que estava do meu lado. Desci, coloquei-o na árvore. Missão cumprida. Então, enquanto ia para casa, começou a viagem: e se depois de tanto cuidado, ainda sentado no meu lugar no ônibus, eu perdesse o bichinho de vista? Sei lá, se ele entrasse pela manga da minha camiseta, como eu o tiraria de lá sem esmagá-lo? Ou pior, será que eu não teria um desses sobressaltos assustados que fazem espanar o local por onde o inseto acabou de entrar? Isso seria o seu fim, certamente. Ou ainda: Se na hora que eu tivesse levantado, o ônibus tivesse dado uma freada brusca, me obrigando a segurar repentinamente no pega-mão, esmagando o bichinho que, aí sim, estaria no centro da minha palma? Imagina a minha reação... imagina a reação daquelas pessoas que tinham acabado de presenciar uma inesperada interação entre homem e inseto. Quem ia começar a rir do homem, pelo seu trabalho mal-sucedido e sua estupidez? Quem deles iria sentir pena do bichinho que estava a um passo da sua liberdade? Qual homem, qual mulher iria compreender a seriedade do momento onde uma tentativa de resgate foi mal sucedida e a vítima havia se perdido para sempre...?

domingo, 2 de janeiro de 2011

What is a happy new year?

Chegou o tão comentado ano de 2011. Temos mais um ano de vida na Terra antes que o mundo acabe, segundo algumas correntes aí. Se você está lendo isso é porque conseguiu atravessar o ano passado inteiro. Não digo que o tenha feito ileso, claro que muitas marcas o ano que passou deve ter deixado em você, assim como deixou em mim, no seu colega de academia (nas várias acepções da palavra) e no vizinho do andar de cima. Você de repente foi atropelado, ou empurrado, ou acabou algum namoro, o foi operado, ou teve febre, ou foi traído por algum amigo que roubou dinheiro da sua bilheteria, mas sobretudo você atravessou isso. Você está em 2011. Você consegue ler este texto agora. Você deveria se orgulhar disso.


O ano está começando e com ele a gente recebe muitas palavras de incentivo que nos impulsionam a vivê-lo diferentemente do ano que passou. O mundo nos deseja muito dinheiro no bolso (há quanto tempo a gente ouve isso, mesmo?), como nos desejou na entrada de 2010 e como nos desejará o ano que vem. “Muita paz” ouvimos pelas ruas. Muita paz? Como assim? – perguntaria este sem ene que vos fala – defaine “paz”, s’il vous plaît. Paz é uma palavra que deixa muita coisa em aberto: é da paz no mundo que estamos falando? A paz na vida? A paz que se transforma em marasmo quando finalmente chegamos nela? O mundo, o ano, a década – a vida, enfim – são feitos de desafios, e se não for assim caímos no marasmo esse. E esse conceito não combina com a paz desejada no final do ano. Talvez seria melhor nomear esse desejo de “paz nas ruas”, “paz no trânsito”, “paz no morro-de-fulano”, mas não “paz na vida”. A vida deve mover-se. Se não, não combina com a palavra vida.


Agora, viver em movimento é indolor? Não, não é. É nos momentos de desafio e dor que o ser humano cresce. Dói até assumir isso, mas é verdade. Pare um momento, olhe para trás, e você verá o quanto cresceu e o quanto aprendeu nos momentos ruins. Mas me nego – e todos deveriam negar-se – a aceitar esse momento ruim como permanente. Ele só é válido se for transitório.


Ok, finish momento auto-ajuda.


A tevê faz toda uma reportagem para dizer que o ano novo não tem nenhum valor aparente nos movimentos místicos que se conhece. Não é um transito especial dos planetas, não é simbólico no catolicismo – religião predominante no Brasil. (aliás, me ensinaram na catequese que quando Jesus nasceu, Maria começou a contar os dias, por isso se diz “antes” e “depois” de Cristo. Minha pergunta sempre foi: por que o ano começa, então, uma semana depois do nascimento dele? Seria uma margem de erro que deu Maria, caso não tenha conseguido contar dia por dia? Isso é normal, né? Essas tarefas diárias são fáceis de esquecer: anotar gastos diários, tomar pílulas, tomar antibióticos... imagina contar a idade do seu filho em uma época onde não existem calendários impressos com imagens de garotas nuas para dinamizar os dias... Então nada mais justo que ela tenha dado uma semana para contrapor os dias que esqueceu de contabilizar. Essa explicação quase me satisfaz.) E no entanto, existe todo um movimento mental que nos faz pensar coisas boas para que quando o relógio bata a meia-noite e os fogos estourem no céu, a vida mude. Assim, como quando se diz tirrim, tirrion: Coisas boas, Tirrín!! Coisas ruins, Tirrión!!


Não seria bom se conseguíssemos mentalizar isso nos outros dias do ano também? Acordar com o pé esquerdo, maldizer a vida e o mundo e de repente parar e pensar: “hey, não foi isso que combinei comigo mesmo no Réveillon! Coisas boas, Tirrín!”


E aí sim o mundo seria belo e bonito, as pessoas correriam pela relva tal qual um filme campesino onde as crianças tomam banho de riacho, onde os amores são eternos e onde todas as promessas de amor são cumpridas. Onde não existiria conflito armado nem medo de voltar para casa depois das onze da noite. Nem medo de voltar para casa de surpresa e não ser recebido. Onde você diria o que pensa sem medo que as outras pessoas se ofendam. As preocupações do mundo se resumiriam a resolver problemas de escoamento urbano para que não existam enchentes, salvar mineiros quando alguma coisa saia errado, ou simplesmente encontrar alguém para ficar junto e trocar um beijo ou dois. Ou seja, coisas que não fossem provocadas por nós, os humanos, de uma maneira proposital, maldosa.


Encontrar público para assistir à sua peça já não seria problema, pois as pessoas buscariam seu enriquecimento pessoal por conta própria, sem sentir-se empurradas a fazê-lo. Acidentes no trânsito já não existiriam, pois as pessoas respeitariam – não as regras de trânsito, mas a si mesmas, o que é bem mais complicado. Problemas políticos seriam diminuídos, pois os donos do país pensariam de verdade no seu povo. Ninguém aumentaria seu salário em 73% enquanto sorri diante da desigualdade de um país de dimensões continentais.


E assim a gente teria paz. Não na nossa vida, note bem. Afinal, namoros acabam, trabalhos têm de ser escritos, prazos têm que ser respeitados, correrias devem ser feitas, definições dos novos rumos das coisas-pós-contemporâneas têm que ser realizadas, muitas vezes com muitas discussões e debates. Mas a paz estaria lá, no seu lugar, guardada principalmente no respeito que as pessoas trariam junto consigo de fábrica.


E a vida continuaria movendo-se.


always.

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